SEMINÁRIO OAB SP/FGV INICIA COM ANÁLISE DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL


24/03/2008

O jornalista Carlos Alberto Sardenberg abriu o seminário “ Risco e Oportunidades de Empreender”, promovido pela OAB SP e Fundação Getúlio Vargas (FGV), nesta segunda-feira (24/9), às 9h30, no auditório da FGV. William Eid , Walter Cardoso Henrique, presidente da Comissão de Assuntos Tributários da OAB SP e Pedro Anan Jr foram os moderadores do debate.


 Sardenberg iniciou dizendo que os jornalistas tem dois “ truques”. Primeiro, a habilidade de  ficar em “cima do muro”, ao ouvir todos os lados de um fato e deixar para o leitor/ouvinte, as conclusões. O segundo, a habilidade de defender qualquer ponto de vista, uma vez que trabalha ouvindo todas as versões. Assim, sua palestra pretendia mostrar os fatos e tentar expor as conclusões, lembrando que a economia é uma ciência humana , portanto, incapaz de extrair , como na ciência exata, um único resultado.

 

Exemplificou, dizendo que o Banco Central dos Estados Unidos tomou uma série de medidas para controlar a crise que, num primeiro momento deu uma sensação de alívio ao mercado e num segundo momento deixou o mercado nervoso, porque se medidas como estas vinham sendo tomadas é porque algo de grave estava acontecendo. “ Foi um pacote do bem, com a devolução de dinheiro do imposto de renda para os contribuintes. Será que vai funcionar? Não sabermos, porque se as pessoas gastarem, fazendo a economia girar, funcionou; se optarem por poupar, não vai funcionar. Não é possível saber como vai as pessoas vão reagir, nem mesmo comparando crises, porque  há muitas variáveis entre os dois cenários”, afirmou Sardenberg.

 

Brasil surfa na crise

 

Para o jornalista, quando se analisa a economia é importante entender os fatos e as interpretações. Na sua avaliação , o Brasil vem “ surfando” na onda da crise, porque vem de um período de bom crescimento mundial, que deixou de fora pouquíssimos países. Dois fatores, segundo Sardemberg, contribuíram para este crescimento: a internet, pelo brutal ganho de produtividade, e a entrada da China na era de produção capitalista, com um mercado de 1,3 bilhão de pessoas;” O Brasil deu sorte em decorrência do crescimento da matéria prima, commodities e alimentos, áreas de competência do Brasil”, afirmou Sardenberg.  Ele lembrou que a China consegue hoje metade do cimento do mundo, 1/3 do aço mundial e 7 milhões de barril de petróleo /dia. Também cria novas classes de consumidores . No ano passado a China importou 177 Ferraris e a América Latina, 80.

 

Sardenberg afirmou que neste ano a economia mundial vai crescer menos, mas em  2009 não se sabe o que vai acontecer. “ Os bancos centrais não estão assistindo a crise de barcos cruzados. Os Eua reduziram as taxas de juros, fundos compraram ações dos bancos , resgataram mutuários e empresas. “ Não se busca salvar o banqueiro, mas o banco e os recursos de clientes  e investidores. Quando o banco quebra, todos perdem”, disse. Segundo Sardemberg, não se sabe se o problema é  falta liquidez, ou seja, se os bancos possuem dinheiro, mas não conseguem empresas por crise de confiança, ou se já insolvência bancos estão sem dinheiro para pagar correntistas, investidores, o que é mais grave e poderia gerar uma recessão como a de 1929.

 

 

Crise norte-americana

Sobre a crise imobiliária americana, avaliou que o fundamental hoje é esperar para ver até onde os preços das casas caem  para que, a partir da estabilidade, saber quando valem os ativos e poder mensurar os problemas. Para Sardenberg, ainda não é possível antever se a  recessão ou desaceleração será breve ou longa. Citando “ The Economist”, avaliou que em março o preço de todas as commodities caíram, porque haviam subido demais, puxados pelo consumo alto e pela especulação, que agora caem para  um patamar mais realista. “ A não ser que haja um desastre muito grande nos Estados Unidos, as commodities continuarão a crescer. Certamente se a crise nos EUA for longa, ninguém escapará”, Comentou.

 

Na avaliação de Sardeenberg, a economia brasileira vai muito bem. Comparando com a última crise, em 2002,  as exportações saltaram de 60 bilhões de dólares para 160 bilhões no ano passado, o saldo comercial de 13 bilhões de dólares foi para 40 bilhões e a dívida externa caiu de 210 para 199 bilhões de dólares. A inflação foi dominada,  a taxa de juros caiu, assim como o risco brasil, a massa de rendimento salarial subiu e o crédito também  cresceu no volume e nos prazos“ A mudança foi da água para o vinho, sendo o resultado de 20 anos de reforma de uma polícia econômica que não sofreu mudanças de rumo”, avaliou.

 

A despeito deste quadro positivo, Sardenberg afirmou que o Brasil ainda é o mais atrasado dos paises emergentes, porque tem uma carga tributária alta, , de 37%, quando o ideal seria  22%; um gasto com previdência  de 13% , quando deveria ser 6%; uma taxa de juro de 7%, quando deveria ser 2/3% e um dívida pública liquida de 43%, quando deveria ser 30%. ‘ O Brasil  tem três doenças, na visão do palestrante – baixa qualidade dos políticos, baixa qualidade da burocracia publica e visão dominante no aparelho público de que o Estado é bom e inclusivo e que o capital produz desigualdades. “ A grande revolução que falta ao Brasil fazer é um choque capitalista de infra-estrutura, pois o país tem poucos recursos para investir, mas restringe a atuação do setor privado, caso dos aeroportos’, finalizou.

 

Após a palestra, o público pode fazer perguntas. Inquirido por Walter Cardoso Henrique, presidente da Comissão de Assuntos Tributário da OAB SP, se uma reforma tributária neutra teria sucesso no país, Sardenberg respondeu que uma reforma como está somente será aprovada no Congresso Nacional com o empenho de uma grande liderança. “Por isso o presidente Lula não pode dizer que encaminhou o projeto de reforma tributária  para o Congresso e que sua atuação acaba aí”, comentou.

 

 

Amanhã (25/3),  o presidente da OAB SP, Luiz Flávio Borges D´Urso, Ives Gandra Martins, professor emérito das Universidades Mackenzie, UNIFMU, UNIFIEO, UNIP e das Escolas de Comando e Estado Maior do Exército-ECEME e Superior de Guerra-ESG, Presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio e do Centro de Extensão Universitária – CEU; e Everardo Maciel, consultor tributário, ex-Secretário da Receita Federal – encerram o evento, discutindo  “Insegurança Jurídica”,  “Desequilíbrios e vicissitude nas relações fisco-contribuinte”; “Exação fiscal, procedimentos da auditoria fiscal-previdenciária e da Polícia Federal”; “Veto à Emenda 3” e “Responsabilidade fiscal dos empreendedores”, com debate sobre “Insegurança jurídica e o custo Brasil como óbices ao empreendedorismo”.