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Num passado já um tanto distante, travessa da “mais paulista das avenidas”, a famosa Avenida Brigadeiro Luis Antonio já foi o endereço de camadas abastadas da sociedade paulistana. Época em que a via não testemunhava o atual congestionado trânsito e, em lugar de portentosos prédios, abrigava boa porção de algumas finas residências características da capital do Estado. Admiráveis construções alinhavam-se ao seu passeio e compunham parte das variadas opções de moradia da elite da cidade no período compreendido entre 1890 e 1940.

Das dezenas de residências luxuosas e elegantes que havia naquela avenida, somente poucas resistiram bravamente ao tempo e à especulação imobiliária, como é o caso do sobrado aqui tratado.

Localizado no número 1249 da Avenida Brigadeiro Luis Antonio, o “casarão” é um dos últimos exemplares ainda existentes da fase em que se estabeleceram palacetes residenciais espargidos ao longo da avenida.

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Construída ao redor de 1919, a antiga residência é obra do construtor de origem italiana Antonio Bocchini e encontra-se assentada sobre acanhado terreno de aproximadamente 700 m². A arquitetura eclética de sua fachada é notavelmente ornamentada, ao gosto da época, e possui influências do barroco italiano, que vigorou entre os séculos XVI e XVII, como é possível verificar nos adereços dos frontões, das colunatas, cimalhas e nas molduras dos caixilhos das janelas. Em seu interior há um total de 18 cômodos, distribuídos por três pavimentos, sendo um deles o porão habitável.

Seu pioneiro proprietário foi Augusto Pereira de Andrade, de quem pouco se sabe, exceto tratar-se de homem de posses que lhe possibilitaram erguer o rico sobrado.

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Apesar do venturoso percurso inicial como residência até o ano de 1938, quando foi adquirido pelo Exército para sediar a 2ª Auditoria Militar, o imóvel infelizmente ficou marcado, pelo uso que a ele se deu pela Justiça Militar, nas sinistras páginas da ditadura que se instaurou no país entre os anos de 1964 a 1985.

No período ditatorial, as Auditorias Militares eram os órgãos de primeira instância da Justiça Militar que atuaram, ao lado das demais instituições associadas à segurança pública, como o DOI-CODI e o DEOPS, no front da guerra contra a “subversão”. Eram as Auditorias Militares que recebiam as denúncias formalizadas pelos inquéritos policiais militares. Em São Paulo, durante a ditadura militar, nesse prédio funcionaram três Auditorias. A que teve maior volume de processos foi a 2ª Auditoria, do Exército, situada no primeiro pavimento. No segundo pavimento funcionou a 1ª Auditoria, da Aeronáutica e, a partir de 1973, devido ao volume cada vez maior de processos, foi instalada no pavimento térreo a 3ª Auditoria, da Marinha. Essas atividades intensificaram as mudanças no edifício residencial construído em 1919, iniciadas desde a instalação da Justiça Militar em 1938.

O imóvel passou a ser protegido, já na configuração atual, sob a égide do tombamento pela esfera municipal em 2002, inicialmente a partir da Resolução de Abertura de Tombamento CONPRESP no 01/93 e, em definitivo pela Resolução CONPRESP no 22/02, dentro do conjunto de bens que integram a ambiência do bairro da Bela Vista.

Enquanto objeto de arquitetura e elemento característico do período e da evolução urbana do bairro em que está inserido, mesmo no estado de parcial deterioração em que se encontra, o “casarão” construído no início dos anos 20 chama a atenção pela sua beleza plástica e apuro construtivo quanto à harmonia de suas linhas, equilíbrio da composição ao empregar proporções apontadas na linguagem clássica e quanto à cuidadosa execução de detalhes arquitetônicos de gosto eclético.

Por seu turno, a 2ª Circunscrição Judiciária Militar, por volta de 2010, transferiu-se do sobrado da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio para um prédio localizado na Avenida Casper Líbero, no 88, em função da necessidade da Justiça Militar desenvolver as suas atividades em instalações mais amplas e adequadas. 

Desde então o sobrado permaneceu desocupado. Atualmente a construção quase centenária encontra-se em condições razoáveis de conservação, tendo suas principais feições – sobretudo para quem o vê desde a rua – resistido às descaracterizações sofridas pelo uso como Auditoria Militar por mais de 70 anos, ao período mais recente de abandono e de invasões e à ação do tempo e intempéries.

Desde a inauguração da nova sede da Justiça Militar, o antigo imóvel da Avenida Brigadeiro sofreu contínuo processo de deterioração. Sua pintura encontra-se hoje avariada e envelhecida, entre outros problemas, havendo inúmeras infiltrações que promovem o surgimento de manchas de origem orgânica, diversos vidros quebrados, tendo restado como remanescente da caixilharia original somente o grande vitral na escada interna.