Artigo - Em defesa do inquérito policial


06/08/2004

Artigo - Em defesa do inquérito policial

WAGNER ADILSON TONINI




FLAGRANTES
EM DEFESA DO INQUÉRITO POLICIAL
Estudo de Polícia Judiciária e Processualística Penal








Trabalho apresentado ao Concurso promovido pelo Informativo FLAGRANTES do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior – DEINTER 4.

Diretor: Dr. Anivaldo Registro
Coordenador: Dr. Abel Fernando Marques Abreu











Bauru
2004











SUMÁRIO






Capítulo I - INTRODUÇÃO
Transcendendo o passado. Frentes de debates.


Capítulo II – O DESTINATÁRIO DA INVESTIGAÇÃO E DA PROVA
O Juiz Constitucional. Radiografia do inquérito. Sistemática processual.


Capítulo III - REFORMA PROCESSUAL
Mudanças pontuais. Equívocos do legislador.


Capítulo IV – ATRIBUIÇÃO EXCLUSIVA PARA INVESTIGAÇÃO
O dominus investigatio. Artigos 39 e 40 do CPP. Impedimentos comuns ao juiz e promotor. Síndrome de Batmam e abuso de poder.


Capítulo V - CONCLUSÃO FINAL: DEFESA DO INQUÉRITO
Inquérito policial ordinário, sumário e sumaríssimo.


BIBLIOGRAFIA TEMÁTICA GERAL


BIBLIOGRAFIA DE APOIO


























RESUMO






Ao longo de mais de um século a doutrina jurídica brasileira, através dos mais renomados autores, tem reconhecido a prevalência do inquérito policial como instrumento hábil à apuração das infrações penais e da sua autoria. No entanto, ruidosa minoria às vezes procura depreciá-lo, por evidente ciúme corporativista de alguns membros de outras instituições.
Este trabalho busca nas raízes do aparato jurídico, onde o processo penal aparece constitucionalizado, o arrimo logístico capaz de resistir às pressões e avançar rumo ao aperfeiçoamento procedimental.






Palavras-chave



Doutrina – Instrumento – Raízes – Procedimento - Constitucional






EM DEFESA DO INQUÉRITO POLICIAL

I- Introdução
Proceder à defesa do inquérito policial exige transcender tudo quanto se tem debatido a respeito de persecução penal nas últimas décadas. Deixar de lado as citações doutrinárias para aprofundar o estudo das raízes legais do procedimento. Atualmente duas frentes de batalha jurídica se apresentam: a investigação de crimes e a apuração sumária de infrações de menor potencial. Vamos centrar atenções na investigação criminal.

II - Destinatário da investigação e da prova
Por força constitucional a investigação e a prova se destinam ao juiz de Direito (art. 5. º, incisos XXXV e LIII da CF), já que nenhuma lesão de direito pode ser suprimida à cognição judicial, e também por imposição processual (art. 385 e 386 do CPP), uma vez que o objetivo final é a prestação jurisdicional.
Se radiografarmos a estrutura da investigação dentro do Código Processual veremos que o Título II, do Livro I (que contém 49 dispositivos: 20 artigo, 15 incisos, 11 parágrafos e 3 alíneas), não pode ser estudado separado do restante, pois existe um sistema que envolve outros dispositivos, de vários títulos, embora quase todos dentro do Livro I (artigos 3.º, 4.º a 23, 33/34, 38/39, 118/154, 155/250, 275/281, 282/372, 381/393). Certos atos e procedimentos expõem vivamente a sistemática: a) interrogatório= remissão expressa (inciso V do art. 6. º e art. 185); b) flagrante= expressa (art 8.º e 301); c) depoimentos= implícita (art. 6.º, III, e 202 a 225); perícias e exames= implícita (art. 6.º VII e 226 a 230); ouvir o ofendido= implícita (art. 6.º IV, e 201); reconhecimento de pessoas e coisas e acareação= implícita (art. 6.º VI e 226 a 230).

III - Reforma processual (Equívocos do legislador)
Pelas razões elencadas somos contra a pretendida reforma processual pontual, ou seja, através de mudanças de dispositivos, capítulos ou títulos, sem a visão da magnitude do sistema. Só dá margem a interpretações equivocadas como foi o caso do artigo 181 do Código de Processo, onde o legislador se esqueceu da palavra “policial”, após “autoridade”. Ora, na sistemática adotada vários dispositivos mencionam a autoridade policial, sem mencionar o juiz, mas referem-se também ao magistrado e vice-versa (quando menciona o juiz, mas aplica-se ao delegado). É o caso da prisão em flagrante do artigo 301 (ou o juiz não tem o dever de prender?). É também o caso do artigo 289, parágrafo único, em confronto com o 299: se inafiançável a infração, o delegado pode requisitar (ao seu colega) a prisão por telefone. O delegado pode por telefone (299) e o juiz só por telegrama (§ único do 289). Fernando Tourinho comenta que Basileu Garcia já chamava a atenção para este despropósito (do legislador). Está em vigor. Vê-se que o legislador às vezes se confunde. No caso do artigo 181 deve ser interpretado em consonância com o artigo 168 e demais dispositivos sistematizados, concluindo-se que o delegado pode mandar suprir formalidades, esclarecer ou complementar o laudo pericial.

IV - Atribuição exclusiva para investigação criminal (Artigos 39 e 40 do CPP)
À luz da sistemática processual atual, cuja manutenção defendemos, “o delegado de Polícia é o ‘dominus investigatio’, a mente experimentada onde a intuição pode germinar com facilidade e propriedade” . O delegado de Polícia tem atribuição exclusiva na presidência do inquérito policial, afastando-se qualquer hipótese de o promotor ou outras autoridades presidirem o procedimento investigatório, senão vejamos:
1. º) O parágrafo único do artigo 4.º do Código Processual está revogado, pois não foi recepcionado pelo parágrafo 4.º do artigo 144 da Carta Magna (tanto que o Delegado Regional Tributário comunica o promotor em casos de crimes de sonegação fiscal e este requisita inquérito ao delegado de Polícia).
2. º) O Ministério Público é parte processual e não pode presidir investigação. Investigar, no sentido amplo da busca de elementos ou provas, qualquer um pode: a vítima, o parente da vítima, a testemunha, o detetive particular, o promotor, o advogado (Exemplo: qualquer um pode filmar um local de tráfico, desde que tenha um ponto de observação). Mas formalizar interrogatórios, depoimentos, proceder a condução coercitiva, acareações, e instaurar procedimento formal só a autoridade competente poderá (portanto o filme, as fotos, os documentos, devem ser encaminhados à autoridade policial com a notícia do crime , para apuração formal). Se o promotor pudesse interrogar o acusado em seu gabinete então o advogado também poderia fazê-lo em seu escritório, uma vez que são partes com direitos iguais (imaginem o advogado instaurando procedimento paralelo, registrando na OAB, etc.). Portanto, o inquérito que formaliza a investigação é de natureza pública e atribuição exclusiva da polícia Judiciária. Diferente da ação penal que não é exclusiva: pode ser pública ou privada, promovida pelo promotor ou querelante.
Mas o legislador foi precavido e na sistemática dos artigos 39 e 40 da lei adjetiva estancou qualquer pretensão ilegítima do órgão ministerial, senão vejamos:
a) Artigo 39, § 1. º - O direito de representação, condição de procedibilidade penal, quando exercido pela vítima ou seu representante ou procurador, sem assinatura autenticada, será reduzido a termo perante o juiz ou delegado. Em linhas curtas, o promotor, como parte ou fiscal, não preside tomada a termo de representação, somente acompanha e apenas quando a ele houver sido dirigida (logo, quem não pode o menos não pode o mais: não pode instaurar inquérito ou qualquer procedimento). Só o juiz e o delegado tem o poder de validar representação não autenticada. O promotor não.
b) Artigo 39, § 4. º versus artigo 40 - Por que o legislador teria apontado duas soluções diferentes em face de hipóteses aparentemente iguais?
b.1) No caso do artigo 40 o juiz encontra nos autos ou papéis e documentos as provas de autoria e materialidade suficientes, em tese, ao pronto oferecimento da denúncia, e então encaminha direto ao promotor.
b.2) No caso do parágrafo 4. º do artigo 39, não há provas suficientes para o pronto oferecimento da denúncia e neste caso não cabe ao promotor investigar, não podendo dispensar o inquérito, razão de o juiz encaminhar a representação diretamente ao delegado.
c) Artigo 39, § 5. º - Ora, o legislador foi previdente e se dúvida pudesse restar ficou completamente estancada com os dizeres do parágrafo 5. º do artigo 39, verdadeira “pá de cal” no assunto: “dispensará o inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o habilitem a promover a ação penal [...]”.
O legislador não previu uma terceira via, ou seja, nenhuma hipótese de o Ministério Público instaurar inquérito não policial para colher outros elementos não trazidos à colação inicial.
A sistemática é perfeita e inteiramente constitucionalizada. É o devido processo legal, que garante a ampla defesa (art 5 .º, LIII, LIV, LV da CF). Arrogar-se presidente de procedimento investigatório inominado, não previsto nem regulado em lei e não sujeito ao controle judicial, procedendo a condução coercitiva e outros atos, é abuso de poder que a sociedade rejeita, conforme teor do editorial do Jornal “O Estado de São Paulo”: “Investigações sem objeto determinado, quebra de sigilos [...] procedimentos que não tem fim têm sido a prática de alguns procuradores [...] que mais se preocupam com armar escândalos políticos do que com servir à Justiça [...] são os fiscais da lei, mas essa condição não os coloca acima da lei” . O Judiciário tem identificado esta “clandestinidade” e uma “verdadeira histeria repressiva”, rejeitando-as. Insistir em instaurar procedimentos ilegais talvez revele uma “síndrome de Batmam”, um desejo ardente de realizar investigação inominada e secreta em casos obscuros ou de repercussão, quando a mídia poderá apontar as luzes de holofotes e câmeras para o fato.
d) Artigos 112, 251 IV, 252, II e IV, e 258 - A lei exige insuspeição e imparcialidade de juízes e promotores, senão vejamos: “abster-se-ão de servir no processo [...]” (art. 112). E prosseguindo: “Art. 252. O juiz não poderá exercer jurisdição no processo em que:
I- tiver funcionado seu cônjuge ou parente [...] como [...] autoridade policial [...]
II- ele próprio houver desempenhado qualquer dessas funções [...]
III- ele próprio [...] for parte [...]”
Ora, o artigo 258 do diploma processual reza que “os órgãos do Ministério Público não funcionarão nos processos [...] e a eles se estendem, no que lhes for aplicável, as prescrições relativas à suspeição e aos impedimentos dos juizes” (leia-se: aquelas contidas nos incisos I, II e III do referido artigo 258). Aliás, as funções da autoridade policial tem distinção legal e caráter público, conforme se depreende do referido inciso I.
Doravante, será sensato exigir que os fiscais rezem de acordo com a vontade e o espírito da lei.

V - Conclusão final: inquérito policial ordinário, sumário e sumaríssimo.
O inquérito policial tem defensores em vários segmentos doutrinários, embora o ensino científico seja um reclamo urgente que nossas Universidades insistem em não atender. Sobre o Juizado de Instrução assim se posicionou E. Magalhães Noronha, “in verbis”: “A imensidão territorial é um adversário do Juiz de Instrução [...] a menos que em cada distrito houvesse um Juizado de instrução, o que acarretaria sério ônus aos cofres públicos”. O autor se esqueceu de acrescentar que, além de um Juizado em cada distrito, seria necessário estabelecer-lhes plantões de 24 horas, todos os dias, sábados, domingos e feriados. Ou que se admitisse também uma realidade que se procura obscurecer: o delegado de polícia é, na prática, um juiz de instrução. Fernando Tourinho Filho, ao analisar o juizado de instrução citou a França, “pátria da liberdade”, onde o suspeito pode ser preso por vinte e quatro horas, sem a participação da defesa. E arremata: “O nosso sistema [...] é mais democrático”.
Após nossa exposição, que é menos radical do que parece, sobre o inquérito investigatório, resta-nos uma breve consideração sobre termo circunstanciado: a experiência já demonstrou que será necessário substituir, no devido tempo, o termo circunstanciado pelo inquérito policial simplificado ou sumário. Nele, a instauração se fará por despacho e a conclusão por despacho ou relatório sucinto, que poderão ser manuscritos. O inquérito sumaríssimo (flagrante ou temporária = 10 dias), sumário (T.C. = 30 dias sem prazo), ou ordinário (comum = 30 dias com prazo), serão instrumentos hábeis à consecução de sua finalidade.
Por derradeiro, cumpre acrescentar que o inquérito policial, presidido pelo delegado de polícia, está constitucionalizado (art. 144, § 4.º), democratizado e otimizado, garante a ampla defesa e preserva direitos, especialmente após a edição da Portaria DGP-18/98 que o impulsionou para próximo da perfeição procedimental, acauteladora da Justiça e da paz social.


WAGNER ADILSON TONINI - Delegado de Polícia

(OBS: O presente trabalho dissertativo obteve a 1.ª colocação, com média final 7,83, no Concurso “EM DEFESA DO INQUÉRITO POLICIAL”, promovido pelo Boletim Informativo FLAGRANTES, do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior – Deinter 4 – Bauru/SP – 2004).




BIBLIOGRAFIA TEMÁTICA GERAL


LIVROS CONSULTADOS

ARRAES, Gerson Silveira. 1000 Perguntas de Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1983.
COBRA, Coriolano Nogueira. Manual de Investigação Policial. São Paulo: Sugestões Literárias, 1969.
DELMANTO, Celso. Código Penal Comentado. Rio de Janeiro, Renovar, 1991.
JESUS, Damásio E. Código de Processo Penal Anotado. São Paulo: Saraiva, 1989.
MANUAL DE POLÍCIA JUDICIÁRIA. Delegacia Geral de Polícia. São Paulo: 2000.
MARCHI DE QUEIROZ, Carlos Alberto. Prática do Inquérito Policial. São Paulo: Iglu 1997.
MAZZILLI, Hugo Nigri. Alterações no Código de Processo Penal. Edições APMP, 1991.
MORAES, Bismael Batista. Direito e Polícia (Uma Introdução à Polícia Judiciária), São Paulo: Revista dos Tribunais, 1986.
NEGRINI NETO, Osvaldo. Manual de Requisições Periciais, do autor, 2000.
NOGUEIRA, Paulo Lúcio. Curso Completo de Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 1990.
NORONHA, E. Magalhães. Curso de Direito Processual Penal. São Paulo: Saraiva, 1979.
QUEIROZ FILHO, Dilermando. Inquérito Policial. Editora ADCOAS – Esplanada, 2000.
ROCHA, Ubirajara. A Polícia em Prismas. São Paulo: Serviço Gráfico da Secretaria da Segurança Pública, 1964.
TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de Processo Penal Comentado, vol. I, São Paulo: Saraiva, 1999.


ARTIGOS CONSULTADOS

ANGERAMI, Alberto at al. Anteprojeto sobre a investigação policial: comentário, Revista ADPESP n. º 31, dezembro de 2001, pp. 9/16.
BORGES D’URSO, Luis Flávio. O inquérito policial e o termo circunstanciado, Jornal do Escrivão, outubro de 2001, e Jornal Tribuna Bastense, 25, outubro, 2002.
CONSELHO EDITORIAL. Um Poder sem controle. Jornal O Estado de São Paulo, 30, dezembro, 2003. Caderno A, editorial, p. 3.
DESGUALDO, Marco Antonio. A lógica na investigação criminal, Revista Brasileira de Ciências Criminais, n. º 27, setembro de 1999, Ed. R.T., pp. 288/293.
FERREIRA, Haroldo. A importância do inquérito policial para a aplicação da Justiça Criminal, Revista ADPESP n. º 30, dezembro de 2000, pp. 33/38.
GODOY, Jorge Batista. Avaliação crítica e sugestões ao anteprojeto do C.P.P. sobre investigação policial, Revista ADPESP n. º 30, dezembro de 2000, pp. 49/61.
GOMES, Luis Flávio. Juizados criminais: esplendor ou ocaso, Boletim IBCCRIM, n. º 89, abril de 2000, pp. 3/4
GENOFRE, Roberto Maurício. Reforma do Código de Processo Penal, Revista Arquivos da Polícia Civil, n. º 46, junho de 2001, pp. 99/106.
MACEDO PEREIRA, Murilo de. As origens do procedimento escrito da atividade policial, Revista Arquivos da Polícia Civil, vol. 44, p. 215/249.
NOVAZZI PINTO, Tabajara. O inquérito policial simplificado, uma necessidade urgente, Revista ADPESP n. º 20, ano 1995, pp. 89/97.
OLIVEIRA ANDRADE, Otacílio de. Poder de investigar, Revista ADPESP n. º 31, dezembro de 2001, pp. 135/140.
PITOMBO, Sérgio Marcos de Moraes. Mais de cento e vinte e seis anos de inquérito policial, Revista ADPESP n. º 25, março de 1998, p. 9/19.
REGISTRO, Anivaldo. Violência e violentos, Revista Arquivos da Polícia Civil, vol. XLV, pp. 4/11.
TONINI, Wagner Adilson. A Polêmica da Investigação Criminal, Boletim ADPESP n. º 66, março de 2001, pp. 27/28.
VIEIRA PINTO, Adilson José. O inquérito policial à luz dos direitos e garantias individuais da Constituição Federal de 1998, Revista Brasileira de Ciências Criminais, Ed. R.T. n. º 27, julho/setembro de 1999, pp. 251/264.
ZACARIOTTTO, José Pedro. A Portaria DGP-18/98 e a Polícia Judiciária democrática, R.T. n. º 769, novembro de 1999, pp. 461/479.



BIBLIOGRAFIA DE APOIO – LIVROS, ARTIGOS E MATERIAL CONSULTADOS


ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Informação e documentação: referências - elaboração. NBR 6023:2000. Rio de Janeiro, ago. 2000.
_____. Apresentação de citações em documentos. NBR 10520. Rio de Janeiro, jul. 2001.
_____. Trabalhos acadêmicos – apresentação. NBR 14724. Rio de Janeiro, jul. 2001.
_____. Normas para datar. NBR 5892: 1989. Rio de Janeiro, ago. 1989.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1988.
LIMA, João Gabriel de. Falar e escrever, eis a questão. Veja, n. º 44, pp. 104-112, 07, novembro, 2001. Reportagem.
MANUAL DE MONOGRAFIA DA FACULDADE DE DIREITO DA ALTA PAULISTA. Tupã: FADAP, 2001.
MÜLLER, Mary Stela; CORNELSEN, Julce Mary. Normas e padrões para teses dissertações e monografias. Londrina: UEL, 1995.
NORMAS PARA PUBLICAÇÕES DA UNESP (Preparação e Revisão de Textos). Editora UNESP, 1994.
ORIENTAÇÕES E MODELO DE PROJETO DE PESQUISA (Apostila de aluno). 2º Bimestre de Iniciação Científica II das Faculdades Adamantinenses Integradas (FAI), 2002.
RIO DE JANEIRO. Tribunal de Justiça do Estado. Hábeas corpus, n. º 597/01-RJ. Relator: Desembargador Valmir de Oliveira Silva, 2001, v.u.
VICTÓRIA, Luiz A . P. Aprenda a Redigir Corretamente (Manual de Composição e Estilo), Editora Tecnoprint.













FLAGRANTES
EM DEFESA DO INQUÉRITO POLICIAL
Estudo de Polícia Judiciária e Processualística Penal








Trabalho apresentado ao Concurso promovido pelo Informativo FLAGRANTES do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior – DEINTER 4.

Diretor: Dr. Anivaldo Registro
Coordenador: Dr. Abel Fernando Marques Abreu











Bauru
2004











SUMÁRIO






Capítulo I - INTRODUÇÃO
Transcendendo o passado. Frentes de debates.


Capítulo II – O DESTINATÁRIO DA INVESTIGAÇÃO E DA PROVA
O Juiz Constitucional. Radiografia do inquérito. Sistemática processual.


Capítulo III - REFORMA PROCESSUAL
Mudanças pontuais. Equívocos do legislador.


Capítulo IV – ATRIBUIÇÃO EXCLUSIVA PARA INVESTIGAÇÃO
O dominus investigatio. Artigos 39 e 40 do CPP. Impedimentos comuns ao juiz e promotor. Síndrome de Batmam e abuso de poder.


Capítulo V - CONCLUSÃO FINAL: DEFESA DO INQUÉRITO
Inquérito policial ordinário, sumário e sumaríssimo.


BIBLIOGRAFIA TEMÁTICA GERAL


BIBLIOGRAFIA DE APOIO


























RESUMO






Ao longo de mais de um século a doutrina jurídica brasileira, através dos mais renomados autores, tem reconhecido a prevalência do inquérito policial como instrumento hábil à apuração das infrações penais e da sua autoria. No entanto, ruidosa minoria às vezes procura depreciá-lo, por evidente ciúme corporativista de alguns membros de outras instituições.
Este trabalho busca nas raízes do aparato jurídico, onde o processo penal aparece constitucionalizado, o arrimo logístico capaz de resistir às pressões e avançar rumo ao aperfeiçoamento procedimental.






Palavras-chave



Doutrina – Instrumento – Raízes – Procedimento - Constitucional







EM DEFESA DO INQUÉRITO POLICIAL

I- Introdução
Proceder à defesa do inquérito policial exige transcender tudo quanto se tem debatido a respeito de persecução penal nas últimas décadas. Deixar de lado as citações doutrinárias para aprofundar o estudo das raízes legais do procedimento. Atualmente duas frentes de batalha jurídica se apresentam: a investigação de crimes e a apuração sumária de infrações de menor potencial. Vamos centrar atenções na investigação criminal.

II - Destinatário da investigação e da prova
Por força constitucional a investigação e a prova se destinam ao juiz de Direito (art. 5. º, incisos XXXV e LIII da CF), já que nenhuma lesão de direito pode ser suprimida à cognição judicial, e também por imposição processual (art. 385 e 386 do CPP), uma vez que o objetivo final é a prestação jurisdicional.
Se radiografarmos a estrutura da investigação dentro do Código Processual veremos que o Título II, do Livro I (que contém 49 dispositivos: 20 artigo, 15 incisos, 11 parágrafos e 3 alíneas), não pode ser estudado separado do restante, pois existe um sistema que envolve outros dispositivos, de vários títulos, embora quase todos dentro do Livro I (artigos 3.º, 4.º a 23, 33/34, 38/39, 118/154, 155/250, 275/281, 282/372, 381/393). Certos atos e procedimentos expõem vivamente a sistemática: a) interrogatório= remissão expressa (inciso V do art. 6. º e art. 185); b) flagrante= expressa (art 8.º e 301); c) depoimentos= implícita (art. 6.º, III, e 202 a 225); perícias e exames= implícita (art. 6.º VII e 226 a 230); ouvir o ofendido= implícita (art. 6.º IV, e 201); reconhecimento de pessoas e coisas e acareação= implícita (art. 6.º VI e 226 a 230).

III - Reforma processual (Equívocos do legislador)
Pelas razões elencadas somos contra a pretendida reforma processual pontual, ou seja, através de mudanças de dispositivos, capítulos ou títulos, sem a visão da magnitude do sistema. Só dá margem a interpretações equivocadas como foi o caso do artigo 181 do Código de Processo, onde o legislador se esqueceu da palavra “policial”, após “autoridade”. Ora, na sistemática adotada vários dispositivos mencionam a autoridade policial, sem mencionar o juiz, mas referem-se também ao magistrado e vice-versa (quando menciona o juiz, mas aplica-se ao delegado). É o caso da prisão em flagrante do artigo 301 (ou o juiz não tem o dever de prender?). É também o caso do artigo 289, parágrafo único, em confronto com o 299: se inafiançável a infração, o delegado pode requisitar (ao seu colega) a prisão por telefone. O delegado pode por telefone (299) e o juiz só por telegrama (§ único do 289). Fernando Tourinho comenta que Basileu Garcia já chamava a atenção para este despropósito (do legislador). Está em vigor. Vê-se que o legislador às vezes se confunde. No caso do artigo 181 deve ser interpretado em consonância com o artigo 168 e demais dispositivos sistematizados, concluindo-se que o delegado pode mandar suprir formalidades, esclarecer ou complementar o laudo pericial.

IV - Atribuição exclusiva para investigação criminal (Artigos 39 e 40 do CPP)
À luz da sistemática processual atual, cuja manutenção defendemos, “o delegado de Polícia é o ‘dominus investigatio’, a mente experimentada onde a intuição pode germinar com facilidade e propriedade” . O delegado de Polícia tem atribuição exclusiva na presidência do inquérito policial, afastando-se qualquer hipótese de o promotor ou outras autoridades presidirem o procedimento investigatório, senão vejamos:
1. º) O parágrafo único do artigo 4.º do Código Processual está revogado, pois não foi recepcionado pelo parágrafo 4.º do artigo 144 da Carta Magna (tanto que o Delegado Regional Tributário comunica o promotor em casos de crimes de sonegação fiscal e este requisita inquérito ao delegado de Polícia).
2. º) O Ministério Público é parte processual e não pode presidir investigação. Investigar, no sentido amplo da busca de elementos ou provas, qualquer um pode: a vítima, o parente da vítima, a testemunha, o detetive particular, o promotor, o advogado (Exemplo: qualquer um pode filmar um local de tráfico, desde que tenha um ponto de observação). Mas formalizar interrogatórios, depoimentos, proceder a condução coercitiva, acareações, e instaurar procedimento formal só a autoridade competente poderá (portanto o filme, as fotos, os documentos, devem ser encaminhados à autoridade policial com a notícia do crime , para apuração formal). Se o promotor pudesse interrogar o acusado em seu gabinete então o advogado também poderia fazê-lo em seu escritório, uma vez que são partes com direitos iguais (imaginem o advogado instaurando procedimento paralelo, registrando na OAB, etc.). Portanto, o inquérito que formaliza a investigação é de natureza pública e atribuição exclusiva da polícia Judiciária. Diferente da ação penal que não é exclusiva: pode ser pública ou privada, promovida pelo promotor ou querelante.
Mas o legislador foi precavido e na sistemática dos artigos 39 e 40 da lei adjetiva estancou qualquer pretensão ilegítima do órgão ministerial, senão vejamos:
a) Artigo 39, § 1. º - O direito de representação, condição de procedibilidade penal, quando exercido pela vítima ou seu representante ou procurador, sem assinatura autenticada, será reduzido a termo perante o juiz ou delegado. Em linhas curtas, o promotor, como parte ou fiscal, não preside tomada a termo de representação, somente acompanha e apenas quando a ele houver sido dirigida (logo, quem não pode o menos não pode o mais: não pode instaurar inquérito ou qualquer procedimento). Só o juiz e o delegado tem o poder de validar representação não autenticada. O promotor não.
b) Artigo 39, § 4. º versus artigo 40 - Por que o legislador teria apontado duas soluções diferentes em face de hipóteses aparentemente iguais?
b.1) No caso do artigo 40 o juiz encontra nos autos ou papéis e documentos as provas de autoria e materialidade suficientes, em tese, ao pronto oferecimento da denúncia, e então encaminha direto ao promotor.
b.2) No caso do parágrafo 4. º do artigo 39, não há provas suficientes para o pronto oferecimento da denúncia e neste caso não cabe ao promotor investigar, não podendo dispensar o inquérito, razão de o juiz encaminhar a representação diretamente ao delegado.
c) Artigo 39, § 5. º - Ora, o legislador foi previdente e se dúvida pudesse restar ficou completamente estancada com os dizeres do parágrafo 5. º do artigo 39, verdadeira “pá de cal” no assunto: “dispensará o inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o habilitem a promover a ação penal [...]”.
O legislador não previu uma terceira via, ou seja, nenhuma hipótese de o Ministério Público instaurar inquérito não policial para colher outros elementos não trazidos à colação inicial.
A sistemática é perfeita e inteiramente constitucionalizada. É o devido processo legal, que garante a ampla defesa (art 5 .º, LIII, LIV, LV da CF). Arrogar-se presidente de procedimento investigatório inominado, não previsto nem regulado em lei e não sujeito ao controle judicial, procedendo a condução coercitiva e outros atos, é abuso de poder que a sociedade rejeita, conforme teor do editorial do Jornal “O Estado de São Paulo”: “Investigações sem objeto determinado, quebra de sigilos [...] procedimentos que não tem fim têm sido a prática de alguns procuradores [...] que mais se preocupam com armar escândalos políticos do que com servir à Justiça [...] são os fiscais da lei, mas essa condição não os coloca acima da lei” . O Judiciário tem identificado esta “clandestinidade” e uma “verdadeira histeria repressiva”, rejeitando-as. Insistir em instaurar procedimentos ilegais talvez revele uma “síndrome de Batmam”, um desejo ardente de realizar investigação inominada e secreta em casos obscuros ou de repercussão, quando a mídia poderá apontar as luzes de holofotes e câmeras para o fato.
d) Artigos 112, 251 IV, 252, II e IV, e 258 - A lei exige insuspeição e imparcialidade de juízes e promotores, senão vejamos: “abster-se-ão de servir no processo [...]” (art. 112). E prosseguindo: “Art. 252. O juiz não poderá exercer jurisdição no processo em que:
I- tiver funcionado seu cônjuge ou parente [...] como [...] autoridade policial [...]
II- ele próprio houver desempenhado qualquer dessas funções [...]
III- ele próprio [...] for parte [...]”
Ora, o artigo 258 do diploma processual reza que “os órgãos do Ministério Público não funcionarão nos processos [...] e a eles se estendem, no que lhes for aplicável, as prescrições relativas à suspeição e aos impedimentos dos juizes” (leia-se: aquelas contidas nos incisos I, II e III do referido artigo 258). Aliás, as funções da autoridade policial tem distinção legal e caráter público, conforme se depreende do referido inciso I.
Doravante, será sensato exigir que os fiscais rezem de acordo com a vontade e o espírito da lei.

V - Conclusão final: inquérito policial ordinário, sumário e sumaríssimo.
O inquérito policial tem defensores em vários segmentos doutrinários, embora o ensino científico seja um reclamo urgente que nossas Universidades insistem em não atender. Sobre o Juizado de Instrução assim se posicionou E. Magalhães Noronha, “in verbis”: “A imensidão territorial é um adversário do Juiz de Instrução [...] a menos que em cada distrito houvesse um Juizado de instrução, o que acarretaria sério ônus aos cofres públicos”. O autor se esqueceu de acrescentar que, além de um Juizado em cada distrito, seria necessário estabelecer-lhes plantões de 24 horas, todos os dias, sábados, domingos e feriados. Ou que se admitisse também uma realidade que se procura obscurecer: o delegado de polícia é, na prática, um juiz de instrução. Fernando Tourinho Filho, ao analisar o juizado de instrução citou a França, “pátria da liberdade”, onde o suspeito pode ser preso por vinte e quatro horas, sem a participação da defesa. E arremata: “O nosso sistema [...] é mais democrático”.
Após nossa exposição, que é menos radical do que parece, sobre o inquérito investigatório, resta-nos uma breve consideração sobre termo circunstanciado: a experiência já demonstrou que será necessário substituir, no devido tempo, o termo circunstanciado pelo inquérito policial simplificado ou sumário. Nele, a instauração se fará por despacho e a conclusão por despacho ou relatório sucinto, que poderão ser manuscritos. O inquérito sumaríssimo (flagrante ou temporária = 10 dias), sumário (T.C. = 30 dias sem prazo), ou ordinário (comum = 30 dias com prazo), serão instrumentos hábeis à consecução de sua finalidade.
Por derradeiro, cumpre acrescentar que o inquérito policial, presidido pelo delegado de polícia, está constitucionalizado (art. 144, § 4.º), democratizado e otimizado, garante a ampla defesa e preserva direitos, especialmente após a edição da Portaria DGP-18/98 que o impulsionou para próximo da perfeição procedimental, acauteladora da Justiça e da paz social.


WAGNER ADILSON TONINI - Delegado de Polícia

(OBS: O presente trabalho dissertativo obteve a 1.ª colocação, com média final 7,83, no Concurso “EM DEFESA DO INQUÉRITO POLICIAL”, promovido pelo Boletim Informativo FLAGRANTES, do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior – Deinter 4 – Bauru/SP – 2004).




BIBLIOGRAFIA TEMÁTICA GERAL


LIVROS CONSULTADOS

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