ARTIGO: VADE RETRO, SATANÁS


23/11/2005

ARTIGO: VADE RETRO, SATANÁS

Vade retro, Satanás


Flavio A Corrêa


A vitória do NÃO no referendo sobre a proibição da venda de armas reacende nossa esperança de consolidar uma democracia no Brasil.

O referendo, além de inócuo e desnecessário porque o Estatuto do Desarmamento já praticamente proíbe que o cidadão comum compre e porte uma arma, foi um verdadeiro acinte econômico: gastou-se nele muito mais do que aplicou-se em segurança em um ano – para alegria da bandidagem.

Mas não foi inútil. Serviu para provar que o povo, na sua maioria, não tem nada de burro e não é tão manipulável quanto imaginaram que fosse. Aproveitou-se da única oportunidade que teve para manifestar seu repúdio à maneira como a coisa pública vem sendo conduzida no país. E o fez de maneira contundente.

Oxalá o resultado das urnas acenda um sinal vermelho na cabeça dos ideólogos do “partidão” e do “partido”.

Urdido pela tropa de choque do Planalto antes da crise de desmandos e corrupção que o devasta, o tal referendo não passava de um ensaio, uma primeira tentativa de aferir o grau de subserviência das massas. Tudo com vistas ao objetivo que lhes move a alma: entronizar-se no poder, agora pela “via democrática”.


Se a cidadania não tivesse se insurgido contra essa primeira e insólita tentativa de supressão de um dos seus mais sagrados direitos, nada mais impediria este governo, e um congresso que mantém financeiramente a cabresto, de atentar rapidinho contra o direito de propriedade e a liberdade de imprensa. Só para começar.

É por isso que fiquei pasmo, como profissional da liberdade que sempre fui, quando li empresários e jornalistas defendendo o “sim”.

Para a “nomenklatura” de plantão, mesmo que ferida de morte pelos escândalos que nos horrorizam, vítima de balas perdidas que aparecem a todo o momento e até de fogo amigo, tudo é um processo onde o fim justifica os meios

Felizmente o tiro do referendo saiu pela culatra.

Foi um passo importante da reação popular contra a lavagem cerebral que as tropas de Gushiken e seus marketeiros tentaram nos aplicar desde o primeiro dia do atual mandato.

Ufa! Dessa nos safamos. E por larga margem.

Mas nada de dormir em berço esplêndido: precisamos ficar mais mobilizados do que nunca, porque há muitas outras armas letais para a democracia que podem ser sacadas contra nós a qualquer momento.

Lembrem-se: assim como o diabo foge da cruz, o preço da liberdade é a eterna vigilância.