ARTIGO: A CRIMINOSA QUE NÃO CHORAVA


12/04/2006

ARTIGO: A CRIMINOSA QUE NÃO CHORAVA

ARTIGO: A CRIMINOSA QUE NÃO CHORAVA

LUIS NASSIF

Os estados Unidos são um modelo para o mundo, quer se goste ou não. Adotam-se no Brasil modelos de negócio importados de lá, hábitos de consumo, princípios jurídicos, grande parte da juventude dourada vai fazer por lá seus Ph.D.s. Além do lado consumerista ou meramente negocial, os EUA consolidaram modernos princípios de direitos individuais -aí reside a face mais legítima do modo de vida americano, a defesa dos direitos individuais.
Profundos defensores dos padrões americanos, nós, da grande mídia, não conseguimos assimilar seus valores, especialmente aqueles referentes aos direitos individuais -com exceção de um ou outro modismo, como a importação de conceitos raciais.
Fosse o advogado experiente, teria dado a orientação para o choro, mas longe das câmeras. E seria uma orientação legítima, porque peça central da acusação é a de que se tem uma criminosa fria, porque não chora. No noticiário policial, ser "fria" passou a ser elemento vital no julgamento (e condenação) de qualquer suspeito. O sujeito comete um crime, é apanhado, sabe que está perdido, mas o delegado sempre se espanta com sua "frieza". Esse estereótipo freqüenta o noticiário policial e sempre é eficiente para induzir a prejulgamentos.
Suzane ajudou a assassinar os pais. É criminosa, ré confessa. Mas de lá para cá sua vida virou um calvário. Acabou seu futuro, foi presa, dentro da cadeia enfrentou presidiárias tentando fazer justiça com as próprias mãos. Fora dela, uma opinião pública atrás de vingança. Pela reportagem da "Veja", fica-se sabendo que ela mora escondido em um apartamento, com medo de ser identificada ou de ser reconhecida na rua. E ela é "fria" porque não consegue chorar. Fantástico!
Por que o advogado orientou-a a chorar à frente das câmeras? Porque a parte mais evidente da campanha por sua condenação é acusá-la de ser "fria", de não ter remorsos. Trata-se, portanto, de uma estratégia de defesa que seria aceita em qualquer tribunal. No direito americano, e no nosso, a relação cliente-advogado é sagrada. É como o confessionário. A televisão não tinha o direito de penetrar na intimidade reservada ao advogado na relação com o cliente. Nem o advogado de ser tão amador assim.
Aliás, a leitora Eliana Furtado, que não diz a profissão, mas provavelmente é psicóloga, escreveu brilhantemente sobre as lágrimas: "Sobre lágrimas, tenho algo a dizer-lhe: toda mulher mentirosa, manipuladora, sem escrúpulos que conheci chorava com uma facilidade! Sabe, lágrimas que escorrem sem que a face se transforme, a pobre vítima do destino, da família, dos amigos, dos namorados. Um choro de novela, sem que a emoção transfigure a face e mostre a dor real que se sente. A partir da segunda vez, fiquei esperta para esse tipo de choro (...) Requerer a lágrima como atestado da verdade que se diz é ignorar completamente a natureza humana".
Foi decretada a prisão preventiva dos irmãos Cravinhos por terem dado uma entrevista. Foi decretada a prisão de Suzane por ter dado uma entrevista. O país ainda é incapaz de fazer justiça sem vingança, de condenar sem atropelar direitos individuais. E de perceber que o direito de opinião está sendo atropelado.

Transcrito do Jornal Folha de S. Paulo, de 12/4/06, pg. B-4.