Artigo : Big Brother Criminal versus Big Brother da Segurança


14/02/2007

Fernando Paulo da Silva Filho

 

 “Consetire vel non contradicere paria sunt”(Consentir e não contradizer são iguais)

 

 Tecnologia. Uma palavra que está incrustada em nossos dias de forma tão forte como globalização. E é sob o argumento da tecnologia que dia a dia o cidadão comum se vê cercado por vários aparatos tecnológicos, não fugindo à regra a questão da segurança, ou quem sabe, vigilância impositiva.

 

O problema é que a vigilância feita com a referida tecnologia, não é privilégio da banda boa da sociedade. A banda podre também tem acesso. E o que assusta a sociedade é que, pelo que vemos diariamente e pelas notícias que pululam os noticiários, a banda podre tem se valido dos métodos modernos de bisbilhotice alheia com maior competência do que os órgãos públicos ou particulares que pretendem nos dar vigilância em nome da segurança e do exercício da cidadania.

 

As notícias de certos crimes hodiernos(hediondos ou não)  nos levam a conclusão de que somos vigiados diuturnamente por criminosos da mesma forma que somos perseguidos pelas câmeras de segurança pública nas ruas, ou privadas nos prédios, residência e cercanias, constrangendo-nos à uma certa resignação coletiva.

 

Os crimes de seqüestro de pessoas invariavelmente são precedidos de grande pesquisa de inteligência onde o criminoso colhe informações sobre rotinas, familiares e amigos do seqüestrando e conseqüente vigilância do mesmo, visando o facinora obter um quadro completo dos dados que vão facilitar e agilizar o seu “trabalho”.

 

Assim, forma-se uma verdadeira rede de inteligência que se ramifica nos mais diversos postos de “vigilância” e tomada de informações que a segurança legal parece não ter formas de combate já que, são notícias repetitivas e que ferem a nossa dignidade de cidadão.

 

A referida ramificação é assustadora já que além de a quadrilha ser “organizada”, como incessantemente informam os entrevistados da segurança pública, tal organização se espalha nos mais variados pontos de utilização de serviços do seqüestrando que nunca sabe se, ao seu lado, está um hipotético informante da banda podre social.

 

Assim é que, por vezes, um dono de bar, funcionários de prédio de trabalho ou de moradia, um amigo que visita o vizinho, o vizinho, o segurança contratado, a amante, o amigo da amante, o moto-boy da entrega, os contratados para um serviço específico, um policial corrupto, um funcionário do seu Banco, um funcionário público corrupto, ou seja, qualquer um em potencial, que tem acesso a informações sobre a sua vida cotidiana ou patrimônio, mediante uma paga por vezes irrisória se dispõe a vigiar e prestar informações para que o “trabalho” de seqüestro seja bem sucedido. É claro que não há generalização, mas isto demonstra a capacidade que tem a criminalidade de se organizar e, com o empenho de seus contratados, alcançar o  objetivo criminoso.

 

Sempre se disse que a polícia persegue os bandidos quanto à tecnologia que sempre têm acesso à tecnologia de armas e outros mito antes do que as forças de segurança. O setor privado só nos oferece alguma segurança se nos isolarmos em condomínios ou carros blindados e mesmo assim não garante 100%.

 

Será que é isso mesmo? Devemos sempre refletir no sentido de que a imprensa tem um papel importante nesta sensação de insegurança. É que para os famosos índices de audiência, não vale informar mais do que alguns segundos sobre aquisição de armas ou viaturas novas pela polícia ou seus avanços tecnológicos, mas comporta horas e dias de repetição a façanha de bandidos em assaltar, seqüestrar ou matar membros da sociedade. Entretanto, noticiário sobre os procedimentos reprováveis de policiais geram elevados índices de audiência e, assim, sempre estão incluídos nas pautas jornalísticas.

 

Isso resulta na sensação ou real sentimento de insegurança aqui descritos já que a sociedade se baseia nas notícias que tem e as que têm não são nada animadoras. E as ruas também não ajudam a ter uma sensação ou visão real melhor, pois todo cidadão tem uma ocorrência de violência sofrida para contar.

 

E invariavelmente num caso de violência estão envolvidos problemas passionais ou patrimoniais. Em um passado razoavelmente distante não era problema construir-se algum patrimônio e dele usufruir. Mas hoje em dia a realidade é bem outra. Nunca foi tão necessário o sigilo bancário e fiscal de quem galga os degraus sócio-econômicos.

 

O patrimônio, ou mais especificamente o dinheiro, criação do homem, é o cerne das disputas e, das disputas, derivam os crimes. Muitas vezes por esses dois motivos, em separado ou em conjunto. Inveja-se o patrimônio alheio ou simplesmente alimenta-se o desejo de subtração pelas mais variadas formas criminosas, e a pré-vigilância organizada, é um dos primeiros passos para sua perpetração.

 

É uma guerra de tecnologia e a disputa mais antiga que já se vê nos livros infantis da luta do bem contra o mal. Estamos sendo vigiados por bons e por maus motivos porque não sabemos ao certo quem nos vigia. A uns, em resignação,  demos tais poderes de vigilância por livre e espontânea vontade de obter segurança. Por outros, somos vilipendiados em nossos direitos de convívio social.

 

São tempos em que é preciso olhar para todos os lados e para todos que nos cercam, pois embora alguns denominem as circunstâncias de paranóia social, a verdade é que num piscar de olhos sofremos apenas por viver nas regras estabelecidas e, os que as transgridem, não vêm qualquer grau de importância em tal transgressão.

 

 

 Fernando Paulo da Silva  Filho é advogado.