MARILU, A ADVOGADA CAIPIRA


12/09/2007

MINHA HOMENAGEM A MARIA DE LOURDES ALMEIDA JUNQUEIRA THOMAZ.

 

 

Maria de Lourdes Junqueira Thomaz, a nossa Marilu, ou a advogada caipira, como gostava de ser chamada, pelos seus amigos e colegas, nasceu, na pequenina cidade de Itaberá, no sudoeste de São Paulo, em 9 de maio de 1913, nas terras, entre os Rios Verde e Taquari, povoadas desde o final do Século XVII, por migrantes vindos das áreas de mineração ou de produção de açúcar.

 

Entretanto, com a doação de terras, em 1862, por três pioneiros, os mineiros José Rodrigues Simões, Francisco Antônio da Silva e Antônio Joaquim Diniz, surgiu o povoado que viria a tornar-se, no futuro, a cidade da pedra brilhante, na língua tupi.

 

Em 1914, no local da antiga capela de Nossa Senhora da Conceição de Lavrinha, surgirá a igreja Matriz, exatamente um ano após o nascimento da menina que, posteriormente, quebrando o tabu, enalteceria a advocacia criminal e o júri, com sua atuação vibrante, altaneira e firme, onde só os homens atuavam, até então.

 

Nesta mesma época (1910), inicia-se a redenção da mulher. Em 1872, a escritora norte-americana, dos Estados Unidos da América, Júlia Ward Howe, sugere a fixação de uma data que reverencie todas as mulheres. No ano de 1910, Ana Jarvis, também norte-americana, filha de pastores, consegue que o governador da Virginia Ocidental, William Glasscock, incorpore o dia das mães, ao calendário oficial do Estado.

 

Em 1914, o Presidente Wilson unificou as datas comemorativas do dia das mães, nos Estados da União, e, no Brasil, a primeira celebração, promovida pela Associação Cristã dos Moços, ocorreu, na cidade de Porto Alegre, no dia 12 de maio de 1918.

 

 Estava assim oficializada e sacramentada a homenagem àquela que, desde a Grécia antiga, era lembrada com honras. Assim era festejada Rhea, a mãe dos deuses, com a entrada da primavera.

 

O Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 8 de março, está intimamente ligado à figura também exponencial do grande tribuno e político, Nelson Carneiro, que, desde sua juventude, lutou, para igualar sua posição na sociedade, outorgando-lhe a Carta de Emancipação, como colaboradora preciosa do homem, a fonte primeira e eterna de sua inspiração e o traço de união entre os seres humanos.

 

Marilu, sem dúvida, coloca-se entre as mulheres que conquistaram, graças ao seu espírito de luta e vanguarda, o merecido lugar de distinção, ombreando-se entre as figuras de destaque do século passado.

 

Esta moça do interior, modesta e desprendida, dotada de grande inteligência, fez os primeiros estudos na sua terra natal, deslocando-se posteriormente para Itapetinga, onde concluiu com brilho o curso de normalista.

 

Cursou, mais tarde, a Faculdade de Higiene e Saúde Pública e de Nutrição e Dietética, da Universidade de São Paulo, tendo exercido com mérito essas atividades.

 

Em 1955, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a velha Academia do Largo de São Francisco, e colou grau, em 1959, na Turma Clóvis Beviláqua.

 

Havia quatro turmas: duas no período da manhã e duas turmas, à noite. Marilu cursou o período noturno, mas logo despontou como uma das mais queridas colegas, graças à sua fidalguia e juventude. Era extremamente extrovertida e sua alegria contagiava todos nós, por sua pureza e galhardia, e, desde logo, mostrou seus pendões para a advocacia que iria exercer, com brilho, até o final de sua vida, aos 94 anos.

 

Marilu casou-se, em 1961, com o colega Raphael Luiz Junqueira Thomaz, e, com ele, viajou para Europa, onde fez o curso de criminologia, na Sorbonne (Paris).

 

Foi como criminalista e advogada de júri, que se sobressaiu, sendo homenageada, em 2006, pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de São Paulo, onde era inscrita, na Subseção de Itapeva, como a advogada mais experiente da advocacia paulista e uma das pioneiras e incansáveis desbravadoras da área até então destinada exclusivamente aos homens.

 

Em Itapeva, fez o primeiro júri, em 27 de setembro de 1966, e em 2005 fez o último, com 92 anos, conforme assinala a Secretária da 76ª Subseção, Dra. Marioli Archilenger Leite.  

 

Esta era a Marilu, que conheci nos bancos da Faculdade, com quem tive a satisfação e o privilégio de estudar.

 

Criatura admirável, não pensava em si, mas dedicava seus dias ao trabalho, aos estudos, à assistência aos necessitados, à defesa intransigente dos humildes e dos mais abastados, sem distinção, ganhando a simpatia de juízes, promotores e advogados. Exercia a advocacia como verdadeiro sacerdócio, com a mais ampla e irrestrita liberdade e independência, honrando a toga de advogado que conquistara com esforço, inteligência e humildade. Um verdadeiro exemplo de vida, para os pósteros.

 

Minha querida Marilu, você deixou-nos, no dia 28 de agosto de 2007, contudo continua viva em nossa memória, porque a morte física é apenas a ascensão ao universo espiritual ou para a eternidade que nunca começa, nunca termina, porque o ser humano está fadado a pisar o solo terreno e caminhar em busca do aperfeiçoamento, que nem sempre encontra, de imediato.

 

Goethe exprime, com notável sensibilidade e genialmente, que a alma do homem é como a água. Do céu vem, ao céu sobe, e de novo tem de descer à Terra, em mudança eterna. Nestes versos, o genial poeta exalta o verdadeiro sentido da vida e a eternidade do homem e da alma.

 

Realmente:

 

A vida é o prelúdio da morte, que, certamente, não é o fim.

 

A vida é o antecedente necessário de um mundo melhor.

 

A vida é o caminho de comunicação entre o homem e o desconhecido.

 

A vida é o caminho da purificação, se bem vivida.

 

O corpo, quando invólucro de uma alma sublime,

 

O corpo, quando invólucro de uma alma pura,

 

O corpo, quando invólucro de uma alma limpa,

 

O corpo, quando invólucro de uma alma iluminada,

 

O corpo, quando invólucro de uma alma luzidia,

 

O corpo, quando invólucro de uma alma em estado de graça,

 

Não perece jamais.

 

Não desaparece.

 

Apenas se transforma.

 

Apenas se movimenta.

 

Assim, era Marilu.

 

Agradeço aos colegas de Itapeva (76ª subseção da OAB SP), Doutores Orlando César Müzel Martho e Marioli Archilenger Leite, ao Marcelo Raifur, desta subseção, e à secretária da presidência da OAB SP, Andréia Tarelow, pela lhaneza, com que me atenderam, fornecendo subsídios para que pudesse desincumbir-me da honrosa tarefa de prestar a última homenagem à minha querida colega de turma.

 

Leon Frejda Szklarowsky

Turma Clóvis Beviláqua - 1959

*advogado * escritor * juiz arbitral