FORMAÇÃO MULTIMÍDIA E ÉTICA PREDOMINAM NA AUDIÊNCIA PÚBLICA SOBRE DIRETRIZES CURRICULARES DO CURSO DE JORNALISMO


18/05/2009

OAB SP sediou na última segunda-feira (18/5), uma audiência pública do Ministério da Educação com a sociedade civil sobre a revisão das diretrizes curriculares nacionais – DCN – do curso de Jornalismo.

 

 A  mesa dos trabalhos foi integrada pelo presidente da Comissão de Especialistas da Formação Superior em Jornalista, professor José Marques de Melo; pela coordenadora geral de Orientação e Controle de Educação Superior, Eunice Marques;  pelo professor Carlos Manuel Chaparro, membro da Comissão de Especialistas em Formação Superior, e pelo conselheiro da OAB SP e presidente da Associação Paulista de Imprensa, João Batista Oliveira, representando o presidente da Ordem, Luiz Flávio Borges D´Urso.

 

JB Oliveira abriu os trabalhos  e saudou os presentes “   Dizem que a imprensa é o quarto poder. Isso dá todo o contexto do peso que o jornalismo tem na sociedade. Hoje, cada vez mais, se exige a especialização profissional.  O jornalista tem uma responsabilidade muito grande. Felizmente, ele tem uma mente ampla e uma grande sensibilidade, sem o que ele não seria jornalista. Dessa forma, desse a todos  um profícuo trabalho durante essa audiência pública”, disse

 

 

 O professor José Marques de Melo, ressaltou que o  jornalismo é o oxigênio da democracia e que a audiência tinha o propósito de  ouvir todos os setores da sociedade no sentido de propiciar as mudanças consensuais nos currículos de jornalismo. A professora Eunice Matos, representante do Mec, ressaltou  que o processo “ era extremamente democrático e participativo e  que a comissão terá 180 dias para realizar este trabalho. “O MEC tem certeza de que esse processo vai gerar um documento indicativo da formação dos jornalistas que o Brasil precisa para o seu desenvolvimento”, afirmou.

 

 

Carlos Chaparro anunciou os dois convidados da Audiência  pública – os jornalistas Caio Túlio e Eugênio Bucci.  Caio é  jornalista, doutor em Comunicação, professor –ex-ombudsman da Folha de S. Paulo e autor de vários livros, entre eles ‘ Ética, Jornalismo e Nova Mídia”.

 

Para Caio Túlio, a formação os jornalistas está  no meio de uma mudança extremamente revolucionária. “Essa mudança vem aí pela porta da tecnologia e dá ao modelo tradicional da comunicação desafios enormes, seja do ponto de vista da técnica, seja do alcance. Trata-se de uma comunicação unidirecional, e hoje ela é bidirecional, e há outras instituições, pessoas e instâncias que agora têm poder de mídia, e isso muda radicalmente a maneira de se fazer comunicação”, comentou.

 

Na avaliação de Caio, o ensino de comunicação precisa acompanhar essa mudança. “A formação do novo profissional multimídia, no entanto, não deve se afastar em nenhum minuto da formação humana. Não há como, por exemplo, ter escolas que ministram cursos de ética e legislação. São dois cursos absolutamente distintos e complementares ao mesmo tempo. Uma coisa é a legislação, outra coisa é a formação ética, fundamental neste momento de grandes transformações e que exige grande atenção à questão tecnológica. O cuidado com a graduação é um cuidado para que seja muito mais profunda a formação humana do que ela é hoje e muito mais atenta às questões das mudanças tecnológicas, que mudam o eixo da comunicação”, comentou.

 

Em sua explanação, Caio Túlio ponderou que  a imprensa não é mais o quarto poder.. “ O jornalista não é mais o ator principal, ele é mais um dos atores da comunicação, o que exige uma formação ética, multimídia e humanística ainda mais aprofundada. Por isso, a questão ética se torna mais importante. Não há a menor dúvida de que nós precisamos cada vez mais do profissional especializado. Urge que alcancemos, no sentido de trazer para a escola de jornalismo, aqueles profissionais graduados em outras escolas, em outras disciplinas, e que possa, num curso mais compacto, que eu não sei se a comissão vai dizer que é de dois anos ou de quanto tempo é, dar também a formação jornalística”.

 

Caio Túlio advertiu, ainda,  que tem  mais de 30 anos de redação e constata que os jornalistas que chegam ao mercado de trabalho não sabem escrever.  “Isso até é normal, mas pior do que isso é que eles chegam com dificuldade de ler, e isso é fundamental para ele saber interpretar e escrever. Se ele não tiver essa formação anterior, ele não vai poder exercer essa profissão, e nós vamos continuar vendo o jornalismo sendo feito, como temos visto, de maneira irresponsável, causando os problemas que causa, e fazendo das empresas de comunicação as responsáveis pela formação de determinados jornalistas, especializados ou não”, concluiu.

 

 

Em suas considerações, Eugênio Buccci, também jornalista, professor e autor de várias obras ligadas à comunicação  e ética,  ponderou que  a formação da comissão  do MEC para rever as diretrizes curriculares dos cursos de jornalismo era um dos acontecimentos mais auspiciosos neste ano . “Essa é uma exigência não corporativa, é uma exigência da democracia. Temos que reconsiderar os parâmetros das diretrizes curriculares não na perspectiva daquilo que interessa a nós, profissionais, mas daquilo que interessa ao cidadão e à democracia”, comentou

 

Para Bucci, há dois eixos importantes na formação do jornalista: linguagem e democracia. “ Eu proponho esses dois eixos porque é necessário que o profissional de jornalismo esteja apto a ser formar e a atuar além dos padrões que nos são oferecidos pelas escolas, que compartimentam o jornalismo em jornalismo impresso, radiofônico, televisivo, divisões que já não fazem nenhum sentido. Não existem mais redações compartimentadas como as escolas as imaginam, e às vezes nós temos a sensação de que as escolas estão formando jornalistas para os anos 70, 80, e eu ponho isso dentro do eixo da linguagem”, ressaltou.

 

Para Bucchim, a linguagem visual é da maior importância, assim como  linguagem lógica,  que envolve lógica, retórica, é da maior importância. “O domínio de outros idiomas, porque o universo do jornalista não se restringe àquilo que está limitado dentro das fronteiras idiomáticas, me parece fundamental. Dentro do domínio do Português, acredito que nós precisamos contemplar no currículo aspectos da gramática habituais e regulares, mas também elementos estruturais de narrativas, possibilidades de narrativas, o que requer o comparecimento na formação do jornalista de matérias que costumam ser vistas unicamente como pertencentes ao campo da ficção. Dentro de linguagem é que eu coloco também o domínio do texto, o domínio da imagem, na sua forma de vídeo, o domínio da fala, o diálogo, e das novas possibilidades digitais”, analisou.

 

No eixo da democracia, Bucci evidenciou que  a razão essencial da existência do jornalismo reside na especificidade desse nosso campo que contém a dimensão da independência e da objetividade. “A democracia precisa da imprensa porque precisa de um ponto de vista independente com relação aos poderes estabelecidos capaz de relatar, propor debates, medir o debate público, de forma a atender o direito fundamental à informação. Por isso é preciso recuperar esses parâmetros da independência, que estão na base da formação ética do profissional.  No entender de Bucchi, a ética perpassa toda a formação a formação do jornalista e faz uma diferenciação entre jornalista e assessor de imprensa. Para ele,  “observação independente não se confunde com assessoria de imprensa, sem prejuízo de nenhuma das atividades”. “O jornalista precisa sair da sua formação universitária com uma sólida informação sobre o funcionamento da democracia. Parece um paradoxo, mas isso não tem feito parte da nossa formação. Conhecer a democracia significa conhecer o poder público, a administração pública, as regras da transparência na administração pública, a divisão dos poderes, competências etc.”.

 

Bucchi apontou, ainda as técnicas de investigação e de apuração  como parte da formação estrutural. “Claro que aí entra a formação humanística sólida, esse seria um terceiro eixo. E o quarto eixo, que não conta da proposta da Unesco, é a formação em teorias da comunicação. Não acho desejável que concebamos a formação do jornalista e o exercício da profissão como algo que não lide com as teorias da comunicação, porque opera com a comunicação. Conhecer só Economia, Geografia, Política, Fundamentos da democracia, Direitos Humanos e técnicas de narrativa não é suficiente para termos um bom profissional de imprensa. É preciso que ele conheça os parâmetros das teorias da comunicação, e isso não é na pós-graduação. Me escapou, mas dentro de linguagem coloco a linguagem matemática. Jornalista precisa ter formação matemática para lidar com os números, com estatísticas”, avaliou.

 

 

 

Após  a intervenção dos convidados, a palavra foi aberta ao público. Eduardo  Ribeiro, diretor da Mega Brasil, comentou a questão da formação dupla dos jornalistas, uma vez que as empresas de comunicação também fazem seus filtros e cursos para training e da formação acadêmica.“ Sou do grupo dos práticos. Não tenho a vivência acadêmica acentuada. Vejo que existem dezenas de cursos de especialização porque o jornalista não tem capacidade de entender esses assuntos. É notório que alguma coisa precisa ser feita e essa iniciativa é fantástica. - O único segmento do jornalismo com forte crescimento há duas décadas é o da comunicação corporativa, que difere do jornalismo tradicional. Isso constitui uma espécie de anomalia: os estudantes entram na universidade, se preparam para atuar em redações mas ao saírem da universidade terão maior facilidade de se empregar na comunicação corporativa, sem se sequer tenham sido preparados para isso.  Sugerimos à comissão inserir no curso de comunicação uma vertente de jornalismo para comunicação corporativa, como se fossem cadeiras de especialização: especialização em redação e especialização em assessoria de comunicação. Tanbém é preciso dotar os cursos de matérias como Cidades, Segurança pública, Tráfico de drogas, Violência, Economia etc a fim de que os jornalistas saibam interpretar melhor a sociedade. A terceira sugestão é criar na universidade um ambiente que estimule a reflexão sobre o jornalismo”.

 

Luiz Egypto,  do Observatório da Imprensa, ponderou que as universidades não acompanharam as novas tecnologias que surgiram no jornalismo. “Podemos dar um desconto de esse processo é recente, faz 15 anos a popularização da Internet. Mudou radicalmente a forma de fazer jornalismo. Aquilo que era discurso passou a ser diálogo, a talvez isso implique uma reformulação dos cursos. Nós acreditamos que curso algum terá sucesso sem uma profunda formação humanística, coisa que só a academia pode prover. A técnica é o de menos, a técnica aprende-se sem grandes problemas. E, depois, é importante trabalhar a crítica de mídia, bem como o contraditório. Hoje sataniza-se a mídia, mas se esquece de qualificar o jornalismo”, concluiu.

 

 

                             

A jornalista Santamaria Nogueira Silveira, assessora de imprensa da OAB SP,  tratou da assessoria de imprensa dentro das diretrizes curriculares, buscando o contrapondo às colocações de Bucci que separa o trabalho do jornalista e do assessor de imprensa.  “ Assim como perfil dos jornalistas mudou radicalmente nas últimas décadas em decorrência de exigências tecnológicas e éticas, o papel do assessor de imprensa também alterou-se em decorrência das exigências da sociedade por  mais  transparência e ética dentro das organizações, sejam públicas ou privadas. A discussão sobre o papel do assessor de imprensa tem de ser colocada  no debate sobre diretrizes curriculares até porque o jornalista trouxe seus saberes para o âmbito da assessoria de imprensa, que inicialmente tinha um perfil do RP no Brasil”, ressaltou.

 

Para Santamaria Silveira , o jornalista/assessor de imprensa superou a visão utilitarista que a atividade tinha inicialmente. “ O assessor de imprensa hoje tem, a exemplo do jornalista de redação,  compromisso com a verdade,  que não está mais atrelada à ótica do cliente,  com sua  credibilidade enquanto profissional,  enquanto fonte e com a independência no âmbito de sua práxis,  externando seu  compromisso de transparência, tendo muitas vezes de  driblar normas autoritárias  para contemplar o direito de saber da sociedade.E tudo isso  precisa ser contemplado por essa mudança nas diretrizes curriculares. O jornalista de redação também teve sua ética depurada  - de Assis Chateaubriand até hoje. O assessor de imprensa também estipulou fronteiras ética para sua atuação. Certamente, a função do assessor de imprensa não é só intermediar as relações do cliente com as redações. Esse papel ampliou-se e tem hoje compromisso com o interesse público, a ética  e a sustentabilidade”, finalizou.

 

 Ao final da audiência pública,  o professor Marques de Mello, fez sua avaliação  “ Vamos tentar fazer o melhor das diretrizes, mas sem ilusões. As diretrizes só serão eficazes se a sociedade civil estiver organizada. O MEC tem limitações. A lei hoje dá autonomia completa às universidades: elas publicam anúncios em jornais, professores dão entrevistas etc. A qualidade do ensino também depende da cobrança que a sociedade faz. Medicina, por exemplo, começou a avaliar e já há muitas faculdades sendo fechadas. A campanha enorme das comunidades é que o MEC é autoritário, que está intervindo. Se não houver uma pressão da sociedade é possível que muitas dessas ações sejam minimizadas”, comentou.



 Segundo Eunice Marques, o MEC tem até 12 de agosto para receber  esse trabalho e encaminha-lo ao Conselho Nacional de Educação, a quem cabe a definição das diretrizes curriculares nacionais, que depois serão enviadas ao ministro para a sua homologação. Nossa expectativa é que antes de finalizar o ano essas diretrizes curriculares nacionais novas para os cursos de Jornalismo estejam disponibilizadas para a sociedade brasileira e quem sabe a partir de 2010 tenhamos cursos novos sendo implantados em nosso país.

 

Sobre as considerações feitas ao longo da audiência, o professor Carlos Chaparro ressaltou a concordância  com Caio Túlio de que o jornalismo não é o quarto poder. “ O jornalismo nunca foi o quarto poder. Imaginou que fosse, mas era usado para que ele se julgasse o quarto poder. Na realidade se você avaliar a história do jornalismo, ele tem uma dependência que é inimiga dessa possibilidade do quarto poder: ele sempre depende do que os outros fazem e do que os outros dizem. Por isso essa crença do quarto poder se assenta sobre uma crença falsa, de que tudo depende de nós. O jornalismo não pertence aos jornalistas, ele pertence à sociedade, é um bem público, com o espaço público do conhecimento. A sociedade é um ente ético, o que caracteriza são os valores e princípios em que as pessoas acreditam. O jornalismo faz parte do cenário ético da sociedade”, concluiu.