ARTIGO: É O ARTISTA UM CIDADÃO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA?


07/10/2010

Afonso Romano de Santana

A arte oficial não consegue resolver seu paradoxo fundamental: diz que não há fronteiras, que tudo é lícito, desde, é claro, que sejam suas fronteiras. 

A 29ª Bienal está propiciando uma discussão que na pode ficar na superfície dos fatos. Consideremos que esse episódio da censura remete para algo conhecido no mundo antigo como “morte em efígie”. Não se podendo destruir o réu, destruía-se sua imagem, arrasando sua memória. Mas não é a primeira vez que dentro da modernidade ocorreu um crime semelhante. Em 1965 três pintores mataram Marcel Duchamp. Gilles Aillaud, Antonio Recalcati e Eduardo Arroyo pintaram oito quadros realistas nos quais surpreendiam Duchamp subindo uma escada, esmurravam-no, torturavam-no e jogavam-no escada abaixo nu. Duchamp, que propunha a morte da arte, não gostou de se ver morto ali. E analisando esse quadro/episódio em O Enigma Vazio (Ed. Rocco), eu dizia que não é matando, mesmo em efígie, o ícone da arte de nosso tempo que o entenderemos. O desafio é ira a fundo na sua vida & obra. Além do mais, a censurável violência dos três pintores insere-se no quadro violento dos anos 60/70 quando o pensamento totalitário à esquerda e à direita achava que pela força resolveriam problemas sociais e políticos.

Portanto, preservando-se o direito do artista se expressar, mas alertando para as conseqüências disto, não se pode deixar de ver na obra daquele artista pernambucano um paradoxal exercício da violência. A meu ver, deveríamos ter aprendido com a Revolução Francesa, com a russa, a chinesa e cubana, que cortar a cabeça dos líderes é inócuo. Por outro lado, ressurge aí a síndrome voluntarista, perversa e autoritária do “justiceiro” – figura que a sociologia estude pertinentemente.

Isto posto é crucial trazer à discussão uma pergunta: É o artista um cidadão acima de qualquer suspeita, acima de todas as leis sociais? Lembre-se que a ditadura recente nos deixou uma marca deletéria: depois de tanta repressão, caímos na ânsia de repressão nenhuma. Mergulhamos no oposto. Por isto, o mote: “é proibido proibir”, que tem o seu charme juvenil, é um paradoxo, pois proibir a proibição é exercitar a proibição e a censura, só que do outro lado.

Esta Bienal tem como tema “arte e política”. Ora, falar da política convencional é fácil. Acusar políticos, verberar contra os militares, é banalidade. Eles são os “outros”. No entanto, há um enfrentamento político, igualmente urgente, dentro das artes. É necessário questionar o sistema em que se baseiam. Isso consiste em rever o poder dos curadores, o sistema das galerias, as premiações, a crítica universitária e jornalística, a publicidade, a bolsa de valores, enfim, “deus ex machina” que hoje, mais do que nunca, controla as artes – o mercado.  A arte oficial não consegue resolver seu paradoxo fundamental: diz que não há fronteiras, que tudo é lícito, desde, é claro, que sejam suas as fronteiras e desde que sejam “eles” a decidirem o sistema que tutelam.

Transcrito do jornal "O Estado de S.Paulo" – 21 de setembro de 2010.