ARTIGO: QUANDO A BARBÁRIE CHEGA À UNIVERSIDADE


05/11/2010

Arthur Roquete de Macedo

No momento em que a violência desmedida, a falta absoluta da ética e o desprezo pelos mais elementares princípios de cidadania alcançam a universidade, estamos na antecâmara do caos.
Essa instituição, que deveria ser o reduto contra a intolerância e a mediocridade, um espaço democrático que garantisse a diversidade de opinião, o respeito ao ser humano e praticasse os ideais da cultura humanística, não pode ser o local de práticas deste jaez.
Os recentes e repetidos acontecimentos de "bullying" ocorridos em campos universitários brasileiros anunciam aquela tragédia.
Por uma reportagem desta Folha, tivemos conhecimento de mais um caso, abordando os acontecimentos ocorridos no "InterUnesp 2010". Nesse evento, alunas da Unesp foram agredidas e constrangidas por colegas no grotesco "rodeio das gordas", cujo objetivo era agarrar colegas e, brutalmente, utilizá-las como montaria para simular um rodeio. No campus de uma das mais importantes universidades do país, o evento é inadmissível. Tão grave quanto o ocorrido recentemente com uma aluna da Uniban. Além de "bullying", fica configurada a violência contra a mulher em diferentes contextos e situações.
As declarações do sr. Roberto Negrini, aluno da Unesp e, segundo a Folha, um dos organizadores do evento, seriam cômicas, se não fossem trágicas, uma vez que partem de um estudante universitário que tem os seus estudos pagos pela sociedade, a qual deveria respeitar.
Ele deveria saber que, além de formar profissionais competentes, a universidade deve formar cidadãos responsáveis e prontos a ressarcir, por meio do exemplo e do exercício profissional ético e competente, o investido pela sociedade na sua formação.
Deveria saber também que "brincadeira" e "divertimento" são situações em que todos os protagonistas se divertem, sem causar constrangimentos de ordem física ou moral a minorias indefesas.
De acordo com especialistas da área, dentre os quais incluímos a doutora Ana Beatriz Barbosa Silva, o "bullying" no ambiente escolar é caracterizado como situação em que indivíduos, geralmente os mais poderosos e "enturmados", se divertem repetida e intencionalmente às expensas de outros.
Configura-se, assim, uma situação em que a vítima não tem a possibilidade de se defender. E o que é pior: no caso presente, ocorreu seguramente em quatro modalidades: verbal, físico-material, psicológica e moral. Portanto, o fato não pode ser relegado ao esquecimento ou acobertado.
Esperamos que, após a averiguação, os responsáveis sejam punidos exemplarmente. A propósito, não esperamos do professor Ivan Esperança, vice-diretor do campus de Assis, a instauração de um processo inquisitório.
Temos, sim, a esperança de que as autoridades universitárias atuem com a postura de verdadeiros educadores. Não há espaço para omissão, tolerância ou tibieza.
Felizmente, o Ministério Público tem atuado com consciência e rigor em situações dessa natureza, e certamente manterá a postura.
Como ex-aluno, ex-diretor da Faculdade de Medicina e ex-reitor da Unesp, não posso calar diante do insólito ocorrido.
Exorto o magnífico reitor da Unesp a atuar no sentido de preservar os princípios mais elementares da dignidade humana e o renome da universidade, pelo que ela representa para a educação nacional e para o Estado de São Paulo.


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ARTHUR ROQUETE DE MACEDO é professor emérito da Faculdade de Medicina da Unesp e ex-reitor dessa universidade (1993-1997), membro da Academia Brasileira de Educação, do Conselho Nacional de Educação e presidente do Instituto Metropolitano da Saúde - FMU.