Comédia clássica do repertório francês do século XIX vira motivo de debate sobre racismo


19/05/2015

Comédia clássica do repertório francês do século XIX vira motivo de debate sobre racismo 2
Manifestações nas redes sociais contrárias à exibição da peça A Mulher do Trem, que se utiliza da maquiagem denominada blackface, acabaram por suscitar a necessidade de um debate à respeito do tema

A apresentação da peça “A Mulher do Trem”, acusada de estimular o racismo por usar a blackface – uma maquiagem de rosto que transforma um branco em preto – estava prevista para acontecer nas dependências de um teatro. Porém, após um acordo entre o grupo teatral “Fofos Encenam”, responsáveis por apresentar a obra, deu lugar um debate aberto sobre racismo. Sob o tema “Arte e sociedade: a representação do negro”, promovido pelo Itaú Cultural, aconteceu na última terça-feira (12/05). Participaram do evento, além da presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB SP, Maria Sylvia Aparecida de Oliveira, intelectuais, atores e formadores de opinião,

Para Maria Sylvia, a decisão dos envolvidos pela realização do debate, após uma série de manifestações contrárias à apresentação do espetáculo nas redes sociais, o que causou grande repercussão do assunto, representou significativa contribuição à sociedade ao permitir a discussão em torno do tema “racismo” e abordar a desnecessidade de se utilizar, nos dias de hoje, o recurso do blackface diante da existência de “excelentes atores e atrizes negros”.

Comédia clássica do repertório francês do século XIX vira motivo de debate sobre racismo
A presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB SP, Maria Sylvia Aparecida de Oliveira, foi convidada a participar do evento

A presidente da Comissão da Ordem paulista lembrou que, em 2003, quando a peça foi apresentada, não se registrou tamanha comoção como naquela noite, muito provavelmente por que “as pessoas não se atentaram ao cunho racista embutido no espetáculo”. Outro ponto destacado por Maria Sylvia foi a participação do jovem negro que, para ela, está questionando mais seu papel na sociedade e isso favoreceu o debate. “Todas as instituições que representam a sociedade civil deveriam promover debates para que pudéssemos discutir e pautar o tom racial no Brasil”, concluiu.

Durante o encontro, a atriz Roberta Estrela D’Alva, uma das convidadas da mesa, ponderou que o caminho mais curto para acabarmos com o racismo é através das artes e deixou uma reflexão para a plateia: “O que teremos que transcender, o que vamos deixar morrer em nós, brancos e negros, para que o preconceito termine?”. De acordo com o dramaturgo Aimar Labaki, nossa recente democracia ainda não possibilitou que aprendêssemos a debater sobre assuntos delicados da nossa sociedade, como o racismo, e que isso está acontecendo de forma gradual.

Fernando Neves, diretor da peça, emocionado, pediu desculpas ao público pelo que ocorreu e disse que nunca foi intenção dele ou do grupo “Fofos Encenam” mostrar preconceito racial. Argumentou que as blackfaces não foram feitas para discriminar ninguém, não foram feitas para criar dor, mas observou que não voltará a fazer uso dos recursos em suas peças. Stephanie Ribeiro, uma estudante de arquitetura, disse que o que estava acontecendo naquela noite era a manifestação de pessoas negras que podem dizer o que pensam e manifestar suas opiniões e seus desejos. “Agora, nós que somos negros estamos pautando o assunto.”


Sobre a peça
 

O espetáculo da companhia “Fofos Encenam” é uma montagem mais premiada do grupo, e trata-se do segundo trabalho montado pela companhia. Ganhou sete prêmios no Festivale (Festival de Teatro de São José dos Campos, em 2003), prêmio Shell 2003 de melhor figurino, troféu Terça Insana 2004 para o melhor espetáculo de comédia. “A Mulher do Trem” é um clássico da comédia francesa, escrita no século XIX, e entrou em cartaz pela primeira vez no Brasil em 1920, no Circo Colombo, mantido pelo avô do ator Fernando Neves, que hoje assina a direção da atual montagem.