Desequilíbrio na educação brasileira é raiz do desequilíbrio sócio-econômico


16/09/2015

Guiomar Namo de Mello Saídas para a Crise
Guiomar Namo de Mello, consultora em educação, pontuou que a educação tem sido tratada como um privilégio no Brasil

O ponto comum entre as falas dos quatro expositores do painel “Educação e Ciência no Brasil: como dar um salto?” é a necessidade de reduzir a diferença entre o nível de investimento no ensino fundamental e o ensino superior. No país, segundo dados levantados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2011*, as instituições públicas de ensino superior gastam quatro vezes mais por aluno do que no ensino fundamental. Essa discussão fez parte do terceiro painel realizado no segundo dia do Seminário Saídas para a Crise (15/09).

“A educação tem sido um privilégio no Brasil, desde a sua fundação”, cravou Guiomar Namo de Mello, consultora em educação, ao abrir o painel. A análise da especialista teve como ponto de partida a história do ensino no País, lembrando que “a primeira bandeira no solo educacional brasileiro foi a do ensino superior, formando um sistema de ensino que começou por cima e que arrasta esta questão há muito tempo.”

Para a especialista e ex-secretária de Educação do município de São Paulo, é preciso quebrar este desequilíbrio em termos financeiros e ainda mudar o modo como o sistema educacional é gerenciado, já que ainda temos presente o direcionamento de decisões com base em interesses político-partidários, lideranças locais e entidades coletivas de professores. “Quando começam os anos 90, e o século XXI passa a bater na nossa porta, fica claro, com a revolução tecnológica e a mundialização da economia, que é preciso um conjunto de habilidades básicas que não era na universidade que se adquiria entre os bacharéis, era na escola de base da sociedade. É preciso aprender a usar bem as linguagens, ter um bom raciocínio quantitativo, desenvolver capacidade analítica, falar, ouvir e usar tecnologias”, explicou Guiomar para limitar o momento histórico em que ficou mais evidente a “calamidade que a nossa educação pública é até hoje.”

Jorge da Cunha Saídas para a Crise
Jorge da Cunha, jornalista e escritor, lembrou que a raiz da má distribuição de renda no Brasil está também atrelada à precariedade da escola oferecida à população

Um acréscimo para as consequências deste sistema educacional mal pensado e gerenciado, veio na exposição seguinte, quando Jorge da Cunha Lima, escritor e jornalista. Para ele, a raiz da má distribuição de renda no Brasil não está atrelada ao egoísmo ou individualismo humano, mas sim à precariedade da escola oferecida à maior parte da população: “Nós não damos uma oportunidade igual de formação para as pessoas. Não adianta eu deixar uma universidade gratuita para ricos e não tornar a excelência que existe neste espaço para os cursos secundários e primários da rede pública.”

Priscila Cruz Saídas para a Crise
Para Priscila Cruz, diretora do movimento Todos pela Educação, o ensino no Brasil é muito padronizado, sem que o aluno aprenda o mínimo necessário de cada série, de cada disciplina

A baixa qualidade na formação básica foi um ponto levantado para explicar a dificuldade em tornar o crescimento da economia contínuo e sustentável. Priscila Cruz, diretora do movimento Todos pela Educação, teceu raciocínio que cruza a teoria da complexidade econômica, ou seja, quantidade e variedade de produtos, serviços e ideias, com o desenvolvimento educacional para mostrar que o “Brasil está na contramão, com uma educação que não responde a essa complexidade”. Para a educadora, o ensino é muito padronizado, sem que o aluno aprenda o mínimo necessário de cada série, de cada disciplina. “Essa educação pobre acaba refletindo em uma economia pobre em complexidade, pobre em riqueza de criatividade e inovação, basta ver o que temos de produção de patentes”, finaliza.

Jose Goldemberg Saídas para a Crise
Jose Goldemberg, ex-ministro da Educação, afirmou que o papel da ciência, num país em desenvolvimento, é ter gente preparada para escolher as melhores opções, além de identificar as áreas em que o país possa se tornar competitivo

Arrematando essa mesma ideia, o ex-ministro da Educação e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), José Goldemberg, pontou que o “papel da ciência e tecnologia, num país em desenvolvimento, é ter gente suficientemente preparada para identificar as melhores tecnologias no exterior para comprá-las e, de acordo com as características locais, identificar as áreas em que temos vantagens competitivas e explorá-las. Nossa grande tarefa agora, pensando nas Saídas para a Crise, é identificar áreas em que possamos fazer uma diferença.”