Discurso: homenagem à mulher advogada


09/03/2016

Amigos,

Perdoem-me os presentes - dignas autoridades, professores universitários, familiares, colegas, dr. Marcos da Costa, presidente querido de nossa Casa, e minha querida dra. Kátia Boulos, querida amiga e nobre presidente da Comissão da Mulher Advogada, nossa anfitriã, digna diretoria, se lhes passo, assim, indelicadamente ao largo, sem lhes dirigir as saudações protocolares de praxe que as boas maneiras exigiriam lhes fossem reservadas em solenidade como desta envergadura.

Mas hoje eu peço vênia para diretamente saudar a mulher Advogada na pessoa da advogada dra. Lygia Fagundes Telles, estrela de primeiríssima grandeza de uma constelação de muitos Escritores, e que nos encheu de orgulho ao ser indicada, pela primeira vez, a receber o Prêmio Nobel da Literatura.

Dra. Lygia, aceite, neste primeiro momento, meu mais caloroso beijo e abraço, e os aceite pelos elos firmes da amizade que tive o orgulho e a sorte de herdar de minha família, já que praticamente nasci convivendo com V. Exª. em casa de meus avós, no casarão da Avenida Rodrigues Alves.

Sua figura inspirou gerações, encantou multidões, e sua genialidade de escritora, agora, está a encantar o mundo, e já não era sem tempo!

Nesta manhã, a OAB SP celebra a Mulher Advogada e a escritora Lygia Fagundes Telles, e coube a mim, hoje decana de um lindo Conselho recheado de mulheres, saudá-la, logo eu, Gilda, filha de seus queridos amigos Pituca Figueiredo Ferraz e Javert de Andrade, casal quase personagem de um de seus romances.

Pois desde minha graduação, 36 anos decorreram, anos de lutas, de tristezas, de sofrimento, de angústias, amarguras, decepções, mas também de muitas alegrias.

Anos que me transformaram da jovem que fui, igual a cada um de nós, (a alma povoada de sonhos, agitada de ambições, de planos ousados de conquista ou generosos de reforma), na mulher que hoje sou – mais moderada, mais positiva, mais realista, menos inflamável, menos pretensiosa.
Paralelamente, muita coisa nasceu e muita coisa morreu dentro de mim neste intervalo, mobiliando-me a alma, alternadamente, de berços e de sarcófagos.

Um sentimento, entretanto, permaneceu inalterado no mais profundo de meu ser:
O amor à minha profissão. Continuo a amá-la, como no instante em que decidi a abraçá-la há tantos anos atrás, nos idos de 1977.

E mais:
Pois que agora a conheço, como moeda que se gira familiarmente entre os dedos, pelos dois lados: o direito e o avesso, o belo e o terrível, o generoso e o mesquinho.

E como acontece entre os seres humanos, o amor só existe verdadeiramente, em toda a sua plenitude e intensidade, quando se sabem também os senões, os ônus, as fraquezas, as limitações da criatura amada.
Malgrado tudo, permaneço apaixonada pela minha carreira, a qual me tem dado não apenas tudo o que dela esperava, mas infinitamente mais: trabalho ininterrupto, cegueira, paixão, oportunidades para cultivar o meu espírito, ocasiões para conhecer pessoas admiráveis e travar grandes amizades, a emocionante experiência de viver 100 vidas numa só vida, a sensação de ser útil ao próximo, a confiança de, apesar de tudo, no futuro, não recear a velhice que virá.

Ouso mesmo afirmar que, na medida em que certas coisas ou situações vêm substituir certas pessoas, ela tem feito para mim às vezes de meus pais e familiares, Heloisa e Javert, minhas referências de ética, de disciplina e de correção de caráter e, ainda, com minha fértil convivência com a pioneiríssima tia Esther, - e é por isso que eu amo ser advogada, num entusiasmo quase conjugal, com um carinho indiscutivelmente materno, profissão que hoje divido com o amor da minha vida, minha filha e também minha colega, Heloísa.

Presidente Marcos, dra. Lygia,
Em nenhum lugar do mundo eu me sinto tão bem como em meu escritório, que é o meu refúgio e minha fortaleza.

Nos instantes de provação e desalento, e não são poucos, - afinal, quem não os têm em sua vida? -, é entre suas paredes, de onde pendem meus diplomas e condecorações acadêmicas e profissionais, testemunhas de tanta labuta, de tanta ansiedade, doação, de tantos dramas, mas também de tantas alegrias, - graças aos céus -, que eu encontro incentivo, destemor, indignação e coragem para, apesar de tudo, recomeçar a trabalhar.

Nada mais reclamo da Providência, nem glórias, nem prestígio, nem êxito profissional, nem honrarias ou cargos, que tudo isso se consegue por acréscimo, quando se atendeu à vocação e se lhe pode ser fiel até o fim, sem desfalecimento.

Somos nós juristas, isto é, pessoas que atuam no mundo do Direito, que lidam com normas de Direito, que têm por missão elaborar, fazer conhecido, realizado, respeitado, aplicado, o Direito.

E a essa situação, essa contingência, há de se dar uma dignidade especial, há que deixar em cada um que opera com o Direito uma esmagadora responsabilidade, porquanto o Direito nada mais é que sinônimo de retidão, acerto, correção, Justiça, e tal qual não se conceberia pudesse pontificar num culto o sacerdote que, no mundo atual do gigante e querido Papa Francisco, um religioso que em sua vida íntima ou particular desmerecesse as normas contidas no evangelho da sua religião, nós Advogados, mutatis mutandi, estamos à mercê do nosso sagrado Estatuto da Advocacia e Código de Ética profissional.

Costumam nos censurar porque, como diria Appleton, nós, Advogados, “louvamos exageradamente nossa profissão”. Entretanto, continua ele, esse sentimento de apreço não pode ser levado à conta da vaidade, pois que apenas nos acarreta pesadas obrigações.

Exaltar essa profissão equivale admitir que nós, advogados, só dificilmente conseguiremos atingir tudo aquilo que ela impõe, como deveres e sacrifícios, tudo aquilo que ela exige, dentro do terreno da Ética, da capacidade, da aplicação e do devotamento.

Quanto a nós, mulheres advogadas, por vezes hesitantes entre tantos caminhos a trilhar, entre tantos destinos, escolhemos o Direito.

A condição de ser mulher sempre foi - e certamente continuará a ser por muito tempo - fator desfavorável ao seu livre desenvolvimento cultural e profissional.

Ainda que constituamos família, ou ainda que nos dispusermos a atravessar a vida quase sós, com o coração semi ou vazio de outro coração, provavelmente o caminho não nos será facilitado no mundo das lides forenses, e os ônus virão, de nós exigindo um dispêndio de energia superior às de qualquer ser humano, justamente porque escolhemos o imperativo da vida profissional e familiar.

Às mulheres operadoras do Direito, ouso recomendar um singelo conselho: prudência, coragem e destemor.

Acima de tudo, somos mulheres, e se é verdade que para os clientes existem milhares e milhões de advogados, todos eles em condições de lhes defender interesses e de lhes pleitear os direitos, nós, mulheres, somos as únicas a poder desempenhar, de maneira inteiramente insubstituível, o mister da maternidade e a virtude da obstinação.

Mas, sem nossos colegas e companheiros homens, nada somos. Apenas somos diferentes. Uma diferença abençoada, natural, companheira.

A pessoa que eventualmente escolhemos por companheiro ou companheira pode se revelar, na intimidade, imperfeito e decepcionante, mas é a nossa escolha, e se esta escolha, apesar de todas as suas falhas, possuir dentro do peito uma pequenina chama de luz, por mais insignificante e desmaiada que seja, nós mulheres devemos, antes de entregar esta escolha ao destino, descobri-la, limpá-la das cinzas, alertá-las e fazê-la crescer.

Porque acredito que onde houver uma alma a salvar, um bem a realizar, aí estará a missão da mulher. Da mulher advogada.
Meus Colegas,

Creio com toda a fé de meu grau, que enquanto houver sobre a face da terra o gesto incessantemente renovado de alguém que bate à porta de um desconhecido(a) advogado(a) e lhe confia a defesa de sua liberdade , de sua honra, de sua família, de seu patrimônio, - bens mais-que-supremos -, que constituem a razão de ser de nossa existência, estará sendo feita a apologia de nossa nobre profissão.

Dra. Lygia Fagundes Telles, aceite, com enorme despretensão frente à imensidão de sua genialidade, o mais caloroso abraço de uma sua colega que aprendeu a admirá-la criança, em casa, e cuja admiração, vejo hoje, com enorme orgulho para nós, da OAB SP, mulheres advogadas, louvada e acolhida pelo mundo.

Meus parabéns. E receba de todas nós e de sua Casa, o maior e mais terno abraço.

Gilda Figueiredo Ferraz de Andrade
Conselheira Secional da OAB SP e membro da Comissão da Mulher Advogada