Formação de lideranças políticas é iniciativa que ganha força na OAB SP


21/07/2016

A verdadeira missão de uma liderança política, bem como habilidades necessárias para seguir esse caminho, deram o tom às conversas em evento realizado pela OAB SP no último sábado (16/07), no auditório da Fecomercio, em São Paulo. Na ocasião, a Secional promoveu homenagem ao centenário de nascimento do ex-governador paulista André Franco Montoro e anunciou a criação da Escola de Liderança e Cidadania da instituição. Advogado, conselheiro da OAB SP, professor de Direito e jornalista, ele foi um político precursor, cuja trajetória na vida pública foi pautada pela legalidade, moralidade, ética e liberdade. A forma de fazer política do homenageado servirá como inspiração para a diretoria, conselheiros, advogados e professores de Direito envolvidos em traçar o desenho da escola – projeto já em andamento, conforme anunciou na ocasião o presidente da Secional, Marcos da Costa. “Ele foi e é exemplo, sobretudo para a juventude. É preciso mostrar que política não é isso que se vê hoje no Brasil”, afirma o dirigente.

Na ocasião, convidados comentaram que a escola de líderes poderá contribuir com a política ao atrair perfis interessados em, de fato, trabalhar em prol do desenvolvimento do país. “É preciso desinibir as gerações para o efeito de ingressar na política porque, como estamos hoje, só se interessam pessoas sem nenhuma idoneidade”, diz o jurista Modesto Carvalhosa. Para ele, a iniciativa deveria avivar o interesse sobretudo do advogado, que tem como missão defender a ordem política. O diretor da Faculdade de Direito da PUC-SP, Pedro Paulo Teixeira Manus, também presente, lista traços que considera essenciais em lideranças políticas. A descrição apresenta o que já deveria existir nas Casas de representações políticas governamentais, mas está em falta. “É alguém voltado à comunidade, que trabalhe pelo interesse do grupo, antenado no que acontece em seu entorno e, também, que tenha estímulo de participar de um processo que busque aperfeiçoar o relacionamento social”, diz. “Esse tipo de iniciativa é importante para traçar um norte de ação para essas pessoas”.

Manus também fez reflexão sobre o motivo de o Direito ser berço de muitas lideranças nesse campo. “Acredito que, como a sociedade necessita de regras para funcionar e estas são oriundas do Direito, esses profissionais estão vinculados à formação de caminhos que a sociedade deve seguir, o que acaba estimulando esse estudante a se interessar pela vida social e pela política”, reflete. O secretário de Estado de Energia e Mineração, João Carlos de Souza Meirelles, que representou o governador Geraldo Alckmin na ocasião, chamou atenção para os diferentes papeis de lideranças políticas: não necessariamente são apenas lideranças políticas eleitorais. “O próprio papel da OAB serve como exemplo. Ninguém é candidato a vereador ou presidente da República, mas se reúnem em uma instituição que representa seu setor na sociedade e a sociedade moderna é cada vez mais necessitada de representações específicas de suas peculiaridades”, finaliza.

Entusiasmo e olhar para a coletividade
Nascido em 14 de julho de 1916, Montoro foi advogado e conselheiro da Ordem. À frente de seu tempo segundo depoimentos de pessoas presentes, Montoro liderou iniciativas em prol do bem-estar social, como a criação de conselhos comunitários que discutiam igualdade racial, meio ambiente, segurança pública e assinou o convênio de assistência judiciária com a Ordem em 1986. Como reflexo da atitude levada a cabo há trinta anos, cerca de 1,4 milhão de pessoas carentes foram atendidas no âmbito desse convênio em 2015.

O olhar para a coletividade somado ao entusiasmo, característica que Malu Montoro, filha do homenageado, destaca, ajudaram o político a obter resultados inovadores em um momento difícil do país, quando se vivia o fim de um processo de ditadura militar, e também a admiração até hoje vista nos meios político e acadêmico. Além de cargos públicos que exerceu como vereador, deputado estadual e federal, senador e ministro do Trabalho e Previdência Social, Montoro também foi professor de Direito na PUC-SP e na Universidade de São Paulo (USP).

“Ele era um modelo de político voltado inteiramente ao interesse público, não de grupos ou empresas”, resume Carvalhosa. “Era um instrumento de defesa da coletividade, não só da brasileira”. Segundo o jurista, ele defendia que os países da América do Sul unissem forças para que o continente tivesse “voz no mundo”. Também foi durante sua gestão no governo estadual paulista, na década de 1980, que a primeira delegacia da mulher foi criada. “Montoro demonstrou já naquela ocasião uma grande preocupação pelo atendimento das mulheres vítimas de violências físicas e sexuais”, disse Rosmary Corrêa, hoje presidente do Conselho da Condição Feminina do Estado de São Paulo.

Entre os presentes no palco também esteve Fernando Montoro, que recebeu a homenagem e discursou em nome da família; Jorge da Cunha Lima, vice-presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta; e Airton Soares, advogado. Fernando Montoro ressaltou na ocasião que, para o pai, a ética na política era uma missão de vida. Ao fim do agradecimento, ele doou o livro escrito por Franco Montoro, ‘Introdução à Ciência do Direito’, para a biblioteca da nova escola da OAB SP.