A Fechadura da Porta

Fonte: Grandes Advogados, Grandes Julgamentos - Pedro Paulo Filho - Depto. Editorial OAB-SP

José Ribamar de Carvalho Fontes

Nos idos de 1956, o dr. José Ribamar de Carvalho Fontes, no 1º Tribunal do Júri do antigo Distrito Federal, defendia Paulo Ribeiro Peixoto, acusado de assassinar o jornalista Nestor Moreira, em julgamento da maior repercussão na época, em decorrência do espancamento policial que matou a vítima.
Inobstante condenado o réu a penas elevadas, o defensor produziu excelente oração, e como corolário de sua tréplica, pronunciou palavras lapidares, que bem podem ser consideradas aquilo que se convencionou denominar de "chave de ouro" do discurso forense.
Terminou a defesa assim: "Jurados, não há mais tempo para rebuscar a jurisprudência e sinto encontrar-se o Júri perfeitamente esclarecido para decidir a causa. Jurados, veio-me à memória, neste momento, uma passagem de um livro do escritor cearense João Oana, ocorrida com o célebre pintor e psicólogo húngaro Hunt.
Esse célebre artista idealizou, pintou e expôs um quadro que denominou de "O Bom Pastor". Representava a figura de Cristo, tendo uma lanterna à mão esquerda e batendo com a mão direita a uma porta.
Ao descerrarem a cortina que encobria a obra-prima, um dos críticos presentes exclamou: Ó Hunt, a tua obra está inacabada... A fechadura, falta a fechadura da porta..."
Respondeu o artista: "Esta porta é assim mesmo, é a porta da consciência, é a porta do coração. Não abre de fora para dentro; só abre de dentro para fora."
Assim, senhores jurados, é a porta de vossas consciências, é a porta de vossos corações.
Eu peço ao Júri que entreabra a porta de sua consciência e do seu coração para julgar Paulo Peixoto, como ente humano, e não como uma besta-fera.
Um homem como nós, com seus defeitos, mas também com suas qualidades. Julgai-o, jurados, humanamente, sem fugir às realidades da vida e tereis feito justiça!"
A chave de ouro constitui o fecho da peça oratória, de modo que, ao final, uma figura de retórica ou parábola, de valor moral, impressione pela sua mensagem ou fique ressoando à memória do ouvinte, reforçando o argumento e deixando fica e indelével a peroração, pois a última impressão é que fica na lembrança dos jurados.