A Mulher que Matou o Filho

Fonte: Grandes Advogados, Grandes Julgamentos - Pedro Paulo Filho - Depto. Editorial OAB-SP

Antônio Augusto de Covello Jr.

Em 24 de abril de 1931, uma tragédia abalou a cidade de São Paulo, pela sua crueza e dor. Ficou conhecida como "O Crime da Rua Salette".
O menino João, filho de Antônio de Araújo, sócio de um clube esportivo de renome, apareceu um dia em sua casa com um chapéu que não era seu. O pai comunicou o fato à esposa, que logo interpelou o filho, que na época tinha 15 anos.
A mãe, num gesto tresloucado, pede cem mil réis emprestado a uma amiga, adquire um revólver, volta ao lar, entra no quarto do filho e mata-o Preferia um filho morto a um filho ladrão, disse ao delegado ao ser presa. Foi processada perante o Tribunal do Júri.
O grande Promotor Público, César Salgado, em admirável oração, impregnada de citações doutorais, tentou desmontar a defesa, apoiado na inconsistência das razões da ré e nos subsídios da Medicina Legal e Psiquiatria.
Alteia a voz e olhando fixamente os jurados, diz: "Há pouco mais de um ano, entre as quatro paredes de um quarto, na Rua Salette, essa criatura, mulher e mãe, a acusada, submetia a julgamento uma criança, o seu filho.
Qual o crime? O furto de um chapéu.
Qual a sentença? Pena d morte!
Julgamento tremendo, juízes, julgamento tremendo, em que o filho inculpado vê levantar-se, à sua frente, a imagem de uma justiça desumana e implacável, simbolizada (oh! lancinante visão) na pessoa de sua própria mãe. Julgamento tremendo que, numa aberração estarrecedora...".
E patético proclamou: "Nem toda a água do oceano nem todos os perfumes da Arábia serão capazes de fazer desaparecer essa nódoa."
Covello Jr., na Tribuna de defesa, grande orador e profundo conhecedor de psicologia, tira o maior proveito da emoção que cercava a assistência, mostrando que a ré era mais digna de comiseração do que de castigo.
"Aquela infeliz criatura - perorou - já está condenada para o resto da vida! Sua alma jaz na mesma lousa que cobre o corpo do filho adolescente.
De Antônia de Araújo resta apenas um espectro perdido nas sombras de uma tragédia imensa."
Covello reclamou aos jurados da acusação implacável de César Salgado, afigurando-se "um outro Mefistófeles, a pretender arrastar para as chamas a pobre vítima".
Antônio Augusto de Covello Jr. usava barbas compridas.
"Disse S.Excia. - respondeu o promotor - que eu me havia transformado em outro Mefistófeles, empenhado na danação de sua infeliz constituinte.
Permita-me o nobre orador que eu não me reconheça nesse perfil. Como todos vêem, faltam-me alguns atributos capilares para encarnar a figura lendária." E Assim dizendo o dr. César Salgado confiava o queixo imberbe.
O dr. Covello, num ato reflexo, levou a mão à barba, provocando risadas entre os jurados e a assistência.
Depois da peroração de Antônio Augusto de Covello Jr., a assistência aplaudiu-o intensamente, obtendo o advogado o veredicto da absolvição.
Contou Francisco Patti que "na Tribuna do Júri predomina com efeito a doutrina de Charles Richet: se um deus descesse à Terra e frequentasse os tribunais, infinita seria a sua tolerância para a culpa dos que sofrem".
O advogado Covello Jr. era um tribuno forense maiúsculo, pois contava com voz dominadora, o carácter imperativo, a atitude física e o amor voluptuoso da glória.