A Tragédia de Tijuca

Fonte: Grandes Advogados, Grandes Julgamentos - Pedro Paulo Filho - Depto. Editorial OAB-SP

Evaristo de Moraes

Crime célebre foi o cometido pelo acadêmico Luís Lacerda, filho do cientista João Batista de Lacerda, então diretor do Museu Nacional. Foi em 24 de abril de 1906, resultando como vítimas o médico João Ferreira de Moraes e a bela Clymene de Bezanilla. Enquanto morrera a primeira vítima, ficara apenas ferida a formosa senhora.
O crime, que alcançou as páginas dos principais jornais da época, sacudiu a sociedade brasileira, tendo logo sido convidado para assumir a defesa do réu o criminalista Evaristo de Moraes.
No entardecer do dia dos fatos, o acadêmico Lacerda postou-se nas imediações do Hotel Whyte, quando dele saiu o dr. Ferreira de Moraes para encontrar-se com a viúva. Encontrando-o, o réu disparou vários tiros de revólver na vítima, que não demorou muito a falecer.
Em seguida, o criminoso dirigiu-se a um posto policial, mas, encontrando-se com Clymene de Bezanilla, contra ela desferiu vários tiros de revólver, ferindo-a. Deixou-se prender em flagrante.
Além de Evaristo de Moraes, trabalhou também na defesa o advogado Silva Nunes.
Procurado, o jovem criminoso recusou-se a auxiliar a sua própria defesa, confessando que desejava ser condenado, dado o grande amor que nutria pela viúva.
"Não era lícito, porém, aos defensores permitir o sacrifício do acusado, sem tentar o supremo esforço. Fizemo-lo junto a pessoa da família, e ela nos forneceu, na insciência de Lacerda, preciosíssima coleção de cartas. Foi-se o segredo. Verificamos, então, que durante três ou quatro anos Lacerda e d. Clymene mantiveram relações que, começando em simples "flirt", foram subindo em intensidade, a extremos íntimos de significação inequívoca." A vítima, sobrevivente, na delegacia, disse que entre ela e Lacerda houvera apenas "uma proposta, não aceita, de casamento."
O julgamento realizou-se a 25 de fevereiro de 1907, nos baixos da Corte de Apelação, na Rua do Lavrádio, onde funcionava o Júri. Presidiu o julgamento o dr. Saraiva Júnior e funcionou como promotor público o dr. Cesário Alvim. Assistente de acusação era o dr. Melo Mattos, advogado de incontestável talento.
"Tinha eu como arma principal a coleção de cartas escritas a Lacerda por d. Clymene.
Àquele tempo, ainda não se havia acoimado de nulidade o ato de acusação ou da defesa, consistente em juntar ao processo à última hora, em plenário, documentos do juízo formado acerca da causa.
Era prática comum.
Baseou-se, portanto, meu discurso, na demonstração de ter havido entre Lacerda e a também acusadora, d. Clymene, relações de certa intimidade, reveladas por aquela comprometedora correspondência.
Havia, de fato, prova convincente de ter sido a formosa viúva mais, muito mais, do que simples namorada de Lacerda. Havia mesmo prova irrecusável de haver o maior amor entre os dois produzido fruto, que eles não deixaram aparecer.
Contava eu (e não sem razão) com o efeito dessas escandalosas revelações no espírito do Júri, o qual não poderia deixar de repelir a atitude de d. Clymene, tendo a coragem de mandar pedir para i seu ex-amante 30 anos de prisão, depois de o haver enganado atrozmente, conforme Silva Nunes, antes de mim, já demonstrara.
A junção das duas acusações, a da mãe do dr. Moraes e da viuva traiçoeira, somente poderia ser, como foi, ruinosa à causa pleiteada por Mello Mattos.
Uma acusação estragou a outra.
Houve réplica, aliás, fraca. Trepliquei, provocando a acusação a obter da presidência do Tribunal fossem ouvidos, ainda, os peritos que estavam presentes. Não se deu por achada a acusação.
Estava ganha a partida. O Júri, muito cabalado por uma e outra parte, absolveu.
Houve apelação. Foi o réu mandado a novo Júri, a que respondeu a 23 de julho de 1928. Nova absolvição. Nova apelação. Esta não foi provida. Assim acabou a "Tragédia de Tijuca".