O Defensor da Irlanda

Fonte: Grandes Advogados, Grandes Julgamentos - Pedro Paulo Filho - Depto. Editorial OAB-SP

Daniel O´Connell

Apesar dos caracteres frios da raça saxônica, Daniel O´Connell foi um dos mais arrebatados oradores da história da eloqüência inglesa. É considerado maior que Gladstone e William Pitt. Exerceu grande domínio sobre a Irlanda como defensor dos direitos do povo irlandês, do qual era legítimo representante, e daí ser olhado com reservas pelo povo britânico.

O depoimento de Gladstone é sugestivo: "Ele não foi somente o maior condutor de homens de seu tempo, como um dos maiores condutores de homens conhecidos na história".

Antes de O´Connell, a Irlanda já havia dado ao mundo grandes oradores como Burke e Sheridan, que brilharam no Parlamento britânico, porém O´Connell foi, única e exclusivamente, orador, e o maior deles. Era uma figura imponente e garbosa e o seu porte atlético impressionava as pessoas.

O´Connell foi um grande advogado, profissão na qual se iniciou na vida pública. Teve uma formação católica e estudou humanidades na França. Regressando à Irlanda, sentiu forte vocação para a advocacia, carreira em que conseguiu extraordinárias vitórias.

Certa vez, quando O´Connell era menino, uns familiares falavam sobre Grattan, fazendo referências a sua vida extremamente movimentada. A criança, depois de ouvir a conversa, ficou muito meditativa, ao que lhe indagaram o motivo. O menino O´Connell respondeu: "Eu também quero fazer muito ruído no mundo".

Contou Hélio Sodré que, como advogado, sua carreira foi ruidosa, movimentada, triunfal. "Com sua eloqüência, conseguiu por vezes arrancar justiça, apesar de católico, de Tribunais marcadamente protestantes."

Em breve tornou-se o advogado mais conhecido, mais falado, mais famoso de sua terra. Era a esperança dos acusados e o terror dos seus adversários.

Por seu temperamento desassombrado, por sua eloqüência, ora violenta, ora sarcástica, "excitava tanto o riso quanto as lágrimas".

O´Connell não raro se via envolvido em rudes debates com os representantes do Ministério Público. Contra um promotor que o defendera, lançou a terrível verrina: "Sou seu igual, ao menos, pelo nascimento, sou seu igual pela fortuna, seu igual, certamente, pela educação e quanto ao talento, não falarei, porque, sob este ponto de vista, não há vaidade alguma em se proclamar seu igual".

As vitórias judiciais de O´Connell fizeram-no famoso e rico. Fosse um profissional materialista e teria continuado a sua trajetória de luz nos Tribunais ingleses, sem se preocupar com a carreira política, fonte inesgotável de tantos desencantos e sofrimentos. Ao contrário, Daniel O´Connell era um católico exemplar e convicto e não admitia, em hipótese alguma, as perseguições aos seus companheiros de crença na Inglaterra.

Abandonou a advocacia no ápice de glória profissional e riqueza material, para defender os católicos irlandeses e a própria Irlanda, que tanto amava. Logo a sua fama de político começou a correr toda a Grã-Bretanha e todo o mundo na Inglaterra começou a chamá-lo de "o agitador inglês", ao passo que na Irlanda apelidaram-no de "O Libertador".

Toda a sua vida política foi dedicada a que os católicos irlandeses fossem emancipados, gozando de todos os direitos reconhecidos aos demais cidadãos, e que a Irlanda pudesse, por si, governar os seus próprios destinos.

Vez por outra, via-se envolvido em sérias contendas por suas atitudes ousadas e desabridas, e uma vez se envolveu com Disraeli, por quem fora desafiado para um duelo. O´Connell, à primeira oportunidade, referindo-se a Disraeli, disse:

"Seu nome mostra que é judeu de origem.

Seu pai se convertera. Achou-se assim melhor neste mundo e espero que se achará melhor no outro.

Tem-se o hábito de desconhecer este povo grande e oprimido, os judeus. São cruelmente perseguidos por pessoas que se dizem cristãs. Mas nunca um verdadeiro cristão perseguiu alguém. Sentem a perseguição da calúnia mais vivamente do que a perseguição da fortuna e da tortura. Tenho a felicidade de conhecer algumas famílias judias em Londres e nunca encontrei mulheres mais bem-educadas, `gentlemen´ mais humanos e mais afáveis e melhor dotados.

Não se poderá supor, portanto, que quando falo de Disraeli como descendente de judeus queira denegri-lo a este respeito. Os judeus foram o povo escolhido por Deus.

Havia entre eles, porém, ímpios, e é num desses ímpios, certamente, que Disraeli tira a sua origem.

Possui precisamente as qualidades do ladrão impenitente que morreu na cruz e cujo nome deve ter sido Disraeli.

Sim, pelo que vejo, Disraeli descende dele e, sob essa impressão, perdôo agora ao herdeiro do ladrão blasfemador, que morreu na cruz."

Muito magoado, Disraeli desafiou-o para um duelo, que O´Connell descartou, pois no duelo anterior seu desafiante D´Esterre saíra mortalmente ferido. O´Connell, homem de boa formação, carregou até os seus últimos dias o remorso de ter matado o adversário, a ponto de se transformar em protetor de sua família, concedendo uma pensão à filha do morto. Por isso, O´Connell nem respondeu ao desafio do Disraeli.

Embora dotado dos atributos da gentileza, da afabilidade e da doçura no trato pessoal, O´Connell quando assumia a Tribuna se transformava completamente; suas palavras pareciam coriscos, seus olhos azuis faiscavam, seus cabelos louros se esvoaçavam, os gestos entrecortavam o espaço como lanças e o orador mais parecia labareda ardendo.

Na Câmara dos Comuns, certa feita, proferiu um arrebatado discurso: "Jamais cometerei o crime de desesperar de minha pátria, e ao cabo de 200 anos de dores encontra-me hoje, em pé direito, neste recinto, repetindo-vos as mesmas queixas e pedindo-vos a mesma justiça que reclamavam nossos pais; porém, não mais com voz humilde e suplicante, senão com convicto conhecimento de minha força e convencido de que a Irlanda saberá fazer, futuramente, sem vós, o que haveis recusado fazer por ela!

Não entro em compromisso convosco; quero, para nós, os mesmos direitos que vós gozais, o mesmo sistema municipal para a Irlanda, para a Inglaterra e para a Escócia; e, se não fora assim, a que se reduz a união convosco?

A uma união sobre pergaminhos, não é assim?

Pois bem! Nós rasgaremos os pergaminhos e o Império ficará cortado pela metade!"

Já velho com 68 anos de idade, Daniel O´Connell não cessou sua luta pela autonomia da Irlanda, proferindo o maior dos seus discursos no dia 15 de agosto de 1843, no conhecido comício de Tara. Tara, uma das mais belas localidades da Irlanda, reuniu 750 mil pessoas, numa tarde ensolarada, e, ante aquele oceano imenso de pessoas, disse:

"Estamos em Tara dos reis, sítio onde os monarcas da Irlanda eram eleitos e onde os caudilhos irlandeses se obrigaram pelo mais solene juramento de honra, a proteger sua terra nativa contra a cobiça do estrangeiro... Neste lugar, tenho que cumprir um dos deveres mais importantes. Aqui protesto em nome de meu país, em nome de Deus, contra essa infundada e injusta União".

Pleiteando a retirada da Irlanda da União com a Inglaterra, votada em 1800, Daniel O´Connell pedia a autonomia administrativa de sua pátria.

Olhando firme para aquela incomensurável massa humana, O´Connell proclamou: "Se o Parlamento irlandês houvesse transferido seu poder de legislar à Câmara Francesa, haveria algum homem que assegurasse que a ata era válida?

Haverá um homem bastante louco para afirmá-lo, haveria algum homem bastante insensato para sustentá-lo?

Que me importa a França? Que me importa tampouco a Inglaterra?

Ambos os países são estrangeiros para mim..."

Procurando chamar a atenção do governo britânico para a bandeira que desfraldara em favor da autonomia da Irlanda, o corajoso advogado irlandês afirmou: "Se tivermos nosso Parlamento outra vez em Dublin, vos perguntarei: Há entre vós algum covarde que não preferia morrer antes de permitir que nô-lo torne a tirar por uma ata da União? (Ruidosas exclamações de `Ninguém se submeteria a isso! Antes morrer!´)

Até o último homem? (Gritos de `Até o último homem!´) Que levante a mão todo o homem que não consentiria na aprovação da ata da União.(Todas as mãos se levantam.)

Quando voltar a se reunir o Parlamento irlandês, desafiarei a qualquer poder na terra o que o tire de novo.

Estais todos prontos a obedecer-me na regra de conduta que vos assinalei? (Gritos de `Sim, Sim!´)

Todos, homens, mulheres e crianças, com a mesma tranqüilidade com que vos reunistes? (Gritos do `Sim, Sim!´)

Mas, se outra vez necessitar de vós, amanhã. Voltareis à colina do Tara? (Gritos de `Sim! Sim!´)

Recordai-vos de que não vos conduzirei a nenhum perigo. Se algum perigo surgisse seria em conseqüência de nos terem atacado, porque estamos resolvidos a não atacar ninguém, e, se o perigo existe, não me encontrareis na retaguarda."

Extremamente emocionado e parecendo estar possuído de seres extranormais, o advogado Daniel, recolhendo todas as forças que guardava no peito, gritou para aquela multidão cativa e presa às suas palavras: "Creio que vos posse anunciar que, dentro de 12 meses, poderemos soltar um hurra pela reinstalação do Parlamento em Colege Green. (Imensa gritaria.)

Vossos gritos quase bastariam para chamar à vida aqueles que descansam nos túmulos. Parece-nos quase ver os espíritos dos mortos poderosos suspensos sobre vós, e os antigos reis e chefes da Irlanda ouvindo, lá das nuvens os gritos que saem de Tara pela liberdade irlandesa. Oh! A Irlanda é uma terra formosa, abençoada pelos generosos dons da natureza. Onde está o covarde que não quererá morrer por ela? (Gritos de `Nenhum!´)

Vossos gritos chegaram até os confins do mundo culto. Nosso movimento é a admiração do mundo... Tendes estado no meu lado por muito tempo. Ficai um pouco mais e a Irlanda será outra vez uma nação."

Por causa do comício de Tara, O´Connell foi processado pelas autoridades britânicas como conspirador e preso. Durante o processo, que durou oito meses, ele se defendeu pessoalmente, pronunciando famosos discursos, modelos de eloqüência judiciária. Pressionado pelo governo da Inglaterra, o Júri condenou-o a um ano de prisão e a pesada multa.

O luto cobriu a Irlanda. Da decisão do Júri, houve recurso no Supremo Tribunal da Inglaterra, que confirmou a iníqua sentença. Formalizado novo recurso, a Suprema Corte Inglesa manifestou-se pela nulidade do julgamento.

Nesse mesmo dia, um companheiro de O´Connell contratou um trem especial em direção a Dublin, que ingressou em território irlandês com duas faixas, um do cada lado, com os dizeres: "O´Connell está livre!".

Mesmo depois de libertado, Daniel O´Connell continuou a lutar pela autonomia administrativa da Irlanda. Contraiu grave moléstia que não impediu a sua pregação política e aos 72 anos de idade, dos quais 50 foram dedicados à Irlanda, faleceu na Itália, onde se achava em tratamento médico.

Como escreveu Hélio Sodré, o mundo inteiro pranteou a sua morte, pois morrera um dos maiores homens de seu tempo e, seguradamente, como a mais rutilante glória da Irlanda. Um bravo advogado irlandês.