A situação dos Portadores de Deficiência nas empresas privadas.


13/08/1998

A situação dos Portadores de Deficiência nas empresas privadas.

Ao contrário do que ocorria nas décadas passadas, quando as portas das empresas estavam fechadas, hoje muitos empresários (não todos) procuram consultores especializados em colocação de portadores de deficiência no mercado de trabalho, com o firme propósito de empregá-los.
São empresários que percebem a necessidade da quebra da hierarquia vertical, tratam seus funcionários como colaboradores, exigem dedicação e competência multidisciplinar e apostam na remuneração por produtividade.
Percebem, ainda, que os outros funcionários passam a reconhecer positivamente o papel de cidadania da empresa em que trabalham, já que ela admite pessoas até então consideradas improdutivas. Quase todos os envolvidos sentem orgulho da empresa.
Mas ainda há obstáculos que impedem que mais portadores de deficiência sejam empregados.
Não basta empregar deficientes. É preciso mantê-los empregados. Muitos são admitidos e, depois de poucos meses, pedem demissão.
Faltam estudos para saber quais circunstâncias colaboraram com a demissão. O espaço arquitetônico pode não estar adequado a cadeiras de rodas (rampas de acesso e banheiros adaptados são essenciais). As chefias imediatas e os colegas podem não estar preparados e gerar climas de constrangimento.
Também não se deve procurar portadores de deficiência porque são "coitados" excluídos ou como se procura funcionários em agências de emprego. É preciso um planejamento.
Não é recomendável que portadores de deficiência ou as instituições que os representam digam ao empresário privado que ele tem de cumprir a lei 8.213/91 (da Previdência), que o obriga a preencher de 2% a 5% de seus cargos com beneficiários reabilitados ou portadores de deficiência habilitados. A lei não pode servir como ameaça.
Não basta, ainda, que portadores de deficiência queiram trabalhar. É preciso que estejam preparados. Alguns podem não ter o perfil desejado pela empresa. Outros podem querer se valer da deficiência para obter privilégios pessoais.
É preciso ter clareza sobre onde termina o direito e começa o privilégio. Às vezes, as famílias também se tornam um obstáculo porque não apostam na independência profissional do filho portador de deficiência.
Não adianta apenas ensinar ofícios de padaria, serigrafia e artes aos portadores de deficiência, como muitas instituições e ONGs ainda fazem, porque eles não vão ser competitivos no mercado de trabalho. É preciso descobrir quais novas profissões são desejadas pelas empresas, saber se são adequadas a eles e treiná-los.
A empregabilidade e a geração de renda dos portadores de deficiência têm de ser amarradas por três pontas: a dos empresários, que querem empregar porque vêem a possibilidade de ter bons profissionais; a das instituições e ONGs, que precisam ter nos seus quadros técnicos competentes, e não apenas caridosos; e a dos portadores de deficiência, que, independentemente da seqüela que portam (incluindo limítrofes), devem se ver como profissionais independentes, sujeitos aos mesmos direitos e deveres dos outros.<br><br>

Colaboração do Prof.João Baptista Cintra Ribas, doutor em antropologia pela USP e vice-presidente do Conselho Estadual para Assuntos da Pessoa Portadora de Deficiência de São Paulo.