Homenagem a Franco Montoro.


21/07/1999

Homengagem a Franco Montoro.
Montoro, o Exemplo.

Agosto de 1996.

Depois de uns quinze anos, eu iria rever uma das figuras mais importantes do cenário político nacional, não fora o admirável professor de Introdução à Ciência do Direito que, em 1970, iniciara mais uma turma de alunos da Faculdade Paulista de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Meus sentimentos de expectativa se dividiam entre a evocação do grande mestre, encarnação de muita energia, simpatia e competência na docência de então, repetida em 1974 quando, com igual brilho, nos ensinou Filosofia do Direito, e a possibilidade de encontrar um ancião já octogenário, talvez alquebrado fisicamente, com natural decadência reflexiva e mental, com mui compreensíveis lapsos de memória e de raciocínio.

Naquela tarde, foi honrado com o convite de Rui Carvalho Piva para, representando o Instituto dos Advogados de São Paulo, acompanhar André Franco Montoro à aula magna inaugural da Faculdade de Direito de Jaú.

Com grande emoção e alegria, pude reviver a inigualável vitalidade e tirocínio de meu mestre, que em 24 horas esbanjou sabedoria, profundo conhecimento, memória excelente e, o que é mais significativo, impressionante sentido e preocupação com temas da atualidade e do futuro, como tão bem ele sempre soube dominar Naquela noite, pudemos presenciar platéia de mais de 500 assistentes aplaudindo de pé uma verdadeira e inesquecível aula sobre Mercosul e a almejada interligação e intercâmbio econômico social entre países desta América, que o eterno professor perenizara diante de alunos, professores e representantes de todos od segmentos da sociedade da região.

Lembro-me de sua raríssima parcimônia e ética ao ministrar suas aulas, tanto no ano em que foi candidato vitorioso ao Senado (1970) como naquele em que elegera Quércia (1974); jamais ouvimos uma só palavra sobre política, nunca o professor deixou de se ater às matérias sobre as quais lecionava. Simplesmente é por isso que, seus alunos, nunca deixaremos de o admirar como professor e amigo, não obstante conseguisse praticar e ensinar a difícil arte de fazer política com toda a força ética e toda a coerência de um cidadão probo.

O desassombro e a coragem de Montoro, aliados à sua incrível habilidade de ser sincero quando a maioria não consegue sê-lo, são marcas indeléveis de seu caráter.

No entanto, de todos os fertilíssimos exemplos que somente um homem singular como Montoro deixa a várias gerações de estudantes, políticos, operadores de direito e cidadãos que tão bem representou, o que mais toca e sensibiliza é o da permanente e imorredoura ternura com que tratava Dra. Lucy, da qual recordo, daquela noite de Agosto de 1996, gentis e delicadas palavras dirigidas por telefone à sempre amada mãe de seus sete filhos, todos privilegiados por poderem ter na vida, como marido e pai, um grande exemplo de homem, cidadão do Brasil.

*Texto de Orlando Maluf Haddad