Artigo - A questão dos sentimentos


23/11/2004

Artigo - A questão dos sentimentos

SENTIMENTO NÃO TEM TEMPO

Quantas vezes você já discutiu com o seu chefe, mas não conseguiu evitar o sentimento de raiva provocado pelos comentários negativos dele em relação ao seu trabalho? E posteriormente ficou remoendo esse sentimento e tendo pensamentos do tipo: “Ele é um idiota” ou “Ele não sabe o que fala”?
Quantas vezes você já deu bronca em seu filho, mas não conseguiu evitar o excesso em suas palavras e acabou magoando-o? E então, ficou com um sentimento de culpa que resultou na compra de brinquedos ou doces em uma tentativa de amenizar ou fazê-lo esquecer de suas duras palavras?
Quantas vezes você já brigou com a sua namorada ou namorado, esposa ou marido, e pensou que estava tudo resolvido, quando de repente, o assunto voltou à tona, gerando uma explosão emocional de choro ou raiva nele(a) e você não conseguiu identificar o motivo de tanto escândalo ou exagero? Mesmo assim, depois de ter vivenciado essa situação, você ainda acredita que relacionamento não precisa de atenção, dedicação ou trabalho com muito esforço? E que devemos aprender a se relacionar com o outro na “raça”?
Vivenciamos essas situações em nosso cotidiano e, geralmente, passamos por elas sem dar-lhes a devida importância. Na primeira situação, com o chefe, as emoções foram sufocadas. Na segunda entre pais e filhos, as emoções são vivenciadas com desequilíbrio. E na terceira entre os casais, as emoções foram ignoradas. Todas essas reações aos sentimentos são igualmente prejudiciais à saúde.
É preciso reconhecer que não há como evitar ou eliminar os sentimentos, pois esses aparecem de uma forma ou de outra. Eles sempre existirão e se não soubermos lidar com os mesmos de uma maneira construtiva teremos grandes chances de nos tornar pessoas infelizes, improdutivas e doentes.
Vivemos em uma sociedade que tenta abafar os sentimentos, parece que existe uma placa invisível em todas as ruas, prédios e casas com a seguinte frase: SENTIR NÃO É PERMITIDO. É a ditadura da racionalização! Somos ensinados a desconsiderar os sentimentos desde crianças. As famílias e escolas estão preocupadas somente com o desenvolvimento da inteligência racional dos seus filhos e alunos e se esquecem de ensiná-los a serem também pessoas inteligentes emocionalmente.
Segundo Hendrie Weisinger, psicólogo clínico e autor de vários livros sobre a inteligência emocional, “um dos componentes da inteligência emocional é a capacidade de perceber, avaliar e expressar corretamente suas próprias emoções e as dos outros” (Weinsinger, 1997, p.15).
Atualmente, são raras as pessoas que conseguem identificar suas próprias emoções e lidar de uma forma proveitosa com as mesmas - quanto mais lidar com a dos outros! Se algum amigo ou colega de trabalho fala de seus sentimentos, a primeira reação da maioria das pessoas é tentar desviar do assunto.
Algumas vezes chegamos ao absurdo de considerar aquele que está expondo os seus sentimentos ou demonstrando afeto como uma pessoa “fraca”, “ingênua” ou “babaca”. Ledo engano. São nesses momentos que devemos lançar a seguinte pergunta: Quem é o verdadeiro “fraco”?; Aquele que enfrenta e lida com todos os sentimentos inevitáveis que acontecem durante o dia, ou aquele que foge desesperadamente, nega e evita qualquer tipo de manifestação emocional própria ou do outro?; Aquele que desenvolveu e trabalha continuamente uma estrutura emocional e, conseqüentemente, sabe ajudar o outro sem se prejudicar ou aquele que desconsidera o sentimento do outro, repudiando e desqualificando-o dizendo: “Ah, isso é besteira. Não sei por que você fica tão nervoso com as críticas do seu chefe”; “Você se preocupa muito com as coisas que a sua esposa (marido) lhe fala. Pare de perder tempo com isso. Esqueça”; “Se eu fosse você não daria tanta importância para isso, pois tudo passa com o tempo”.
É verdade que o tempo passa, mas as mágoas não. É preciso começar a perceber que as emoções podem atrapalhar muito as nossas vidas se não forem trabalhadas. Podem acabar com carreiras promissoras e, até mesmo destruir vidas ou famílias.
Então, como lidar com os sentimentos para termos uma vida mais produtiva, feliz e saudável? É possível aprender a utilizar com eficiência as nossas emoções?
Felizmente, os nossos sentimentos podem ser trabalhados por meio de uma resignificação das nossas crenças, ou seja, dando um novo significado cognitivo e, principalmente, AFETIVO às crenças e emoções que envolvem as situações que vivenciamos.Vale lembrar que as crenças que menciono não são crenças religiosas. Crenças são os pensamentos que construímos ao longo da vida com base no julgamento cognitivo e afetivo das situações que experimentamos com os outros.
“A dificuldade maior está em lidar com os sentimentos negativos que permeiam as nossas crenças. Grande parte das pessoas não têm recursos pessoais para lidar com situações emocionalmente instáveis, particularmente quando as emoções em questão são a raiva, a ansiedade ou a tristeza. Quando essa dificuldade junta-se com a da comunicação os resultados podem ser desastrosos” (Weinsinger, 1997, p. 15). Muitas vezes acabamos descontando os nossos sentimentos negativos em pessoas erradas ou situações inadequadas. Já dizia o grande filósofo Aristóteles: “Qualquer um pode zangar-se – isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa – não é fácil” (Ética a Nicômaco) (Goleman, 1995, p. 09).
E porque é tão difícil encontrar essa medida? “Em primeiro lugar é preciso saber que ao lidarmos com os sentimentos negativos como raiva, ansiedade ou tristeza é preciso conhecê-los. E para conhecê-los é preciso sentí-los. E sentí-los, dói. Assim, esse é um dos principais motivos da reação imediata da maioria das pessoas em ignorar esses sentimentos”(Weinsinger, 1997, p. 35).
É certo que agindo desse modo é “possível evitar por algum tempo os sentimentos negativos, mas se perde uma oportunidade de agir por meio deles, isto é, aprender com eles. Quanto mais conseguirmos enfrentar as nossas emoções negativas menos elas nos serão desconfortáveis. Os sentimentos que não são enfrentados acabam se acumulando e tornando-se piores do que se nós tivéssemos prestado atenção neles no momento em que apareceram” (Weinsinger, 1997, p. 35).
Sentir raiva, ansiedade, medo e tristeza fazem parte da vida. Ter esses sentimentos não significa que somos pessoas más. É simplesmente parte da existência humana.
E como então transformar a dor causada pelos sentimentos negativos em benefício próprio? O primeiro ato psíquico que devemos alcançar para trabalhar com os sentimentos negativos é ter consciência dos mesmos. Isto é, admitir que sentimos raiva disso, tristeza daquilo e medo disso ou daquilo etc. Se conseguirmos falar desse sentimento para outra pessoa, melhor ainda, pois tudo aquilo que pode ser falado pode ser compreendido e trabalhado. Numa segunda etapa, um ato que poderá facilitar o trabalho será tentar conversar sobre o sentimento com a pessoa que o provocou. Nesse momento, as chances de se resolver com maior rapidez e dar um novo significado ao sentimento e as crenças aumentam, pois surge a possibilidade de se ter acesso ao que o outro sentiu e pensou em relação à situação.
É preciso sempre lembrar que muitas vezes filtramos algumas informações da situação. A percepção individual é naturalmente limitada. Cada um tem uma história de vida, um dicionário próprio de significados e, enfim, como já abordei anteriormente em outro texto de minha autoria (Como melhorar suas relações no ambiente de trabalho) todos somos diferentes um do outro. Conseqüentemente, sentimos e percebemos as situações vivenciadas em nosso cotidiano de uma forma diferente do outro.
Além disso, há também de ser considerado que todos temos defeitos e qualidades, mais ou menos habilidades para lidar com esta ou aquela pessoa ou situação e, conseqüentemente, não é sempre que conseguimos reagir da maneira como gostaríamos.Portanto, não somos perfeitos, mas podemos sempre tentar melhorar as nossas atitudes para que se possa conviver melhor com os outros e também conosco. Já dizia há muito tempo o filósofo Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”(Goleman, 1995, p. 59) Então, o importante é cada vez mais desenvolver a consciência do impacto dos seus sentimentos em você e das reações positivas ou negativas que ele provoca nos outros por meio das suas palavras ou atitudes.
Muitas vezes não é possível fazer todas essas reflexões e atitudes sozinho. Sem dúvida, é preciso coragem para passar por tudo isso. Não é uma tarefa tão simples e fácil como parece. Neste contexto, a terapia pode servir como uma grande aliada no enfrentamento das emoções. O espaço terapêutico possibilita e facilita a vivência e o trabalho dos sentimentos negativos e das crenças. Ao longo do processo, ocorre continuamente uma construção e desconstrução da nossa percepção e da percepção do outro. Esse movimento desenvolve e otimiza a consciência dos próprios sentimentos e atitudes; capacita-nos a administrar as emoções positivas ou negativas com maior eficiência e, progressivamente passamos a saber como utilizar todos os tipos de sentimentos em benefício próprio ou dos outros.
Finalmente, vale ainda frisar que sentimento não tem tempo e nem tabela de juízo. Cada um sente do jeito que sente. Ninguém sente pior ou melhor do que o outro. Ou é mais normal ou anormal porque sente de uma forma ou de outra. O sentimento é próprio de cada indivíduo e atemporal. Só pode saber da sua intensidade quem o está vivenciando. Uma briguinha que para você não tem muita importância, provavelmente, para uma outra pessoa pode ter bastante significado. Se você demorou três meses para se recompor do fim do seu casamento enquanto outra pessoa demorou três anos, também não há certo ou errado, normal ou anormal e nem significa que você é melhor ou pior que o outro. Não existe um manual ou uma fórmula que diga exatamente como você deve se sentir ou reagir à determinada situação. Cada um tem um tempo próprio para digerir os seus sentimentos. Portanto, respeite o seu ritmo e não menospreze ou tente acelerar o ritmo do outro.


VIVIANE SAMPAIO

Psicóloga de Adolescentes, Adultos, Casais e Famílias.



Bibliografia

GOLEMAN, D. “Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente”. Tradução Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

WEINSINGER, H. “Inteligência emocional no trabalho: como aplicar a I.E. nas suas relações profissionais, reduzindo o stress, aumentando sua satisfação, eficiência e competitividade”. Tradução Eliana Sabino. Revisão David Simon. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1997.