Artigo - Adeus a Fuad Abdala- Advogado dos Pobres


24/06/2005

Artigo - Adeus a Fuad Abdala - Advogado dos Pobres

FOI EMBORA O ANJO DOS ADVOGADOS E DOS POBRES



A advocacia paulista sofreu inquestionavelmente uma enorme baixa no seu seleto quadro no último mês de abril com o passamento do Dr. Fuad Abílio Abdala - «22/10/1918 a U23/04/2005 -, deixando, além de familiares e amigos, centenas e centenas de colegas advogados e integrantes da população mais carente lançados à orfandade, uma vez que esse brioso e talentoso advogado cumpriu à exaustão seu papel de marido, pai, amigo dedicado e guru dos operadores do Direito que o procuravam diuturnamente para solucionar questões diversas sobre o Direito e a prática forense, nomeadamente os acadêmicos, bacharéis e advogados recém formados, sendo todos sempre bem recebidos, de forma graciosa e espontânea, por esse gigante de espírito e de coração, o qual também achava sempre um jeitinho de cavoucar um precioso espaço na sua repleta agenda para também prestar assistência jurídica gratuita aos necessitados, sendo assim um verdadeiro anjo dos acadêmicos e advogados, bem como da população carente em geral.

O Mestre Fuad, como carinhosamente gostava de chamá-lo, era cândido e afável nos gestos, simples e manso no falar, com uma inteligência aguçada e sensibilidade ímpar, brincalhão e espirituoso. Tinha um único defeito: não sabia dizer não àqueles que o procuravam por diversas necessidades, fosse na área do Direito, fosse na área da assistência social, certo também ser graduado neste ramo.

Já aposentado como assistente social, num lampejo divino, deliberou, para a sorte da nova geração de advogados que estava por vir, prestar vestibular, ingressando na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco no ano de 1976, já aos 58 anos de idade, concluindo seu bacharelado no final de 1980, iniciando seu auspicioso périplo pela advocacia bandeirante nesse mesmo ano, atuando preponderantemente nas áreas cível e criminal, inclusive como defensor dativo e dedicado, dispensando aos hipossuficientes a mesma atenção e estima que oferecia àqueles que o constituíam como patrono, sendo a humildade o traço marcante de sua personalidade e a sabedoria era atributo que lhe sobrava para passar a todos aqueles que amava.

Conheci o Mestre Fuad no ano de 1985, quando eu ainda era um romântico, assustado e inseguro acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, mal sabendo a distinção entre mandado e mandato, chegando assim ao escritório do Mestre Fuad com essa e centenas de outras dúvidas jurídicas, algumas formuladas por horas e horas a fio ao telefone, as quais foram, de maneira paternal, solucionadas com carinho e paciência por esse verdadeiro Guerreiro de Justiniano e paradigma de ser humano! Cheguei às vezes ruborescer de vergonha, uma vez que minhas consultas jurídicas eram intermináveis, esquecendo-me da longa fila atrás de mim! Ajudou-me na primeira ação por mim intentada - uma separação consensual -, já na qualidade de advogado recém formado, assim como nas dezenas e dezenas de ações que se seguiram. Contudo, sua característica bonachona e generosa não lhe permitiam perder a calma! Ele também prestou assistência social e jurídica gratuita por mais de três décadas à Casa Transitória, entidade espírita, situada no bairro do Tatuapé, em São Paulo, a qual tinha por escopo prestar todo tipo de auxílio material e espiritual à população carente, confessando-me certa feita o Mestre Fuad que fazia tudo isso porque adorava os pobres!

Era um homem carinhoso e extremamente zeloso com sua família, principalmente com seus 8 filhos, 7 adotados de coração, mais sua doce Palmira, esposa fiel e dedicada que lhe acompanhou até os últimos minutos.

Esse anjo dos advogados e dos pobres não depositou seu coração nos bens materiais desta vida, os quais perecem com o tempo pela ação implacável da corrosão. Antes, esse anjo investiu naqueles bens que lhe serão úteis para a eternidade, os quais assim não podem ser corrompidos e corroídos, sem prejuízo de ter lançado nos corações daqueles que o conheceram a semente do trabalho, da fé, da solidariedade, da fraternidade e, principalmente, o incondicional amor pela advocacia e a combatividade incessante em prol das boas causas.

Essa mais que merecida homenagem póstuma agora por mim feita ao querido e inolvidável Fuad Abílio Abdala poderia muito bem ser mais uma daquelas que freqüentemente encontramos, também com merecimento, em espaços reservados de jornais, não fossem as dificuldades padecidas por esse iluminado advogado: foi e fez tudo isso e muito mais na condição de portador da hanseníase, a qual lhe impossibilitava qualquer sensibilidade nas mãos, sem contar ainda o fato de ter dado luz a um sem número de pessoas, embora sensorialmente não a tivesse, uma vez que era deficiente visual como eu sou. Em suma, esse anjo dos advogados e dos pobres concluiu seu curso de Direito sem poder escrever, sequer em braile, em razão da hanseníase, e sem ver, uma vez que não podia enxergar com os olhos da carne, enfim, concluiu seu curso de Direito nas Arcadas só de ouvido, sem nunca jamais reclamar do fardo que Deus lhe destinou, combatendo o bom combate e dando para os advogados e pobres aquilo tudo que poderia, por conta de suas condições físicas e sensoriais, exigir receber.

Mestre Fuad: seu corpo foi cremado no cemitério da Vila Alpina, tendo suas cinzas se transformado na semente virtuosa que você lançou em nossos corações, aguardando com sofreguidão vê-lo na vida eterna. Obrigado por você ter existido, nosso sal da Terra.

Romualdo Sanches Calvo Filho
Advogado, Professor, Autor e Tribuno do Júri