Memorial da Resistência inaugura exposição sobre atuação dos advogados durante a ditadura


19/12/2013

“Se hoje nós podemos comemorar o maior período democrático da nossa república, alicerçado pela Constituição de 1988, eu me orgulho de dizer que muitas pessoas contribuíram para isso, mas me permitam destacar o papel dos nossos advogados nessa história” disse o Presidente da OAB SP, Marcos da Costa, na abertura da exposição “Os Advogados da Resistência – O Direito em tempos de exceção”, no Memorial da Resistência de São Paulo

 

 

Costa, lembrou os advogados que “construíram uma história belíssima na redemocratização do país. Eu tenho muita honra de ser advogado. O advogado tem a capacidade de promover a transformação social. Eu quero mencionar um deles, que está aqui presente, e que presidiu a Ordem durante aquele período da ditadura: Mário Sergio Duarte Garcia”.

 

O Presidente cumprimentou o trabalho realizado e destacou a importância desse resgate da história. “O ano passado nós criamos a Comissão da Verdade na OAB SP para que pudéssemos coletar informações sobre esse triste período, mas que tem a beleza de permitir que nós soubéssemos que temos nossos heróis e dentre eles, os advogados. Parabéns a todos”, disse.

 

A exposição traz fotos e documentos de advogados que defenderam presos políticos e advogados que foram presos durante a ditadura militar. Painéis exibem a história da Ordem dos Advogados do Brasil e a cronologia do golpe militar.

 

Idealizado por Belisário dos Santos Júnior, vice-presidente da Comissão da Verdade da OAB SP, a mostra faz a memória do relevante papel da advocacia durante o período da ditadura.

 

“Essa exposição não é dos advogados da resistência. Quando levarmos para o prédio onde funcionou a justiça militar vamos dar o verdadeiro sentido, pois aqui o espaço é reduzido. Mas há outras dimensões da resistência, a dos sindicatos, a das prerrogativas, o do pessoal que ia nos ajudar quando fomos presos. Quando instaurarmos o Memorial em homengame aos Advogados que militaram na Auditoria Militar, outro triângulo será colocado, que será a data que nós nos apossamos do prédio da Justiça Militar, um espaço que foi de muita dignidade dos advogados. Hoje estamos celebrando esses nomes e vamos celebrar outros que não foram assinalados”, explicou Santos Junior.

 

O advogado Idibal Pivetta contou sobre sua “iniciação”, na defesa dos presos políticos. “Quando eu comecei a trabalhar na auditoria, telefonei para o Mário Simas, que já militava, para saber como era o negócio. Era muita coisa importante a ser feita. Salvar vidas, tirar as pessoas da tortura e principalmente informar o exterior do que estava acontecendo aqui evitando que outras pessoas fossem mortas, assassinadas. Esse memorial tem uma profunda identificação com uma frase que eu ouvi de dom Paulo Evaristo Arns. Ele, que era um grande advogado de batina, me disse “é preferível viver de joelhos a ser assassinado pela ditadura”, lembrou.

 

O Advogado Mario Simas rememorou sua história ali mesmo, no prédio que abrigou o Dops (Departamento de Ordem Política e Social), onde vários presos políticos foram torturados e mortos.

 

“Adentrei a essa casa como advogado em defesa de trabalhadores metalúrgicos que eram perseguidos, em defesa dos seus direitos. Quis a vida que a partir dos trabalhadores eu viesse a defender estudantes, quis ainda que a partir dos estudantes, eu viesse a defender professores universitários. E foram então, professores, estudantes, operários que nos fizeram advogar nessa seara”, lembrou.

 

Defensor de dom Paulo Evaristo Arns, Simas declarou que aprendeu muito com os presos defendidos e com os colegas de grandes provações, de grandes experiências e quis o destino que eu terminasse, se é que terminei, no exercício da minha profissão defendendo dom Paulo. Isso eminentemente é uma vitória porque aqui houve mortes, desrespeito, tortura, houve tudo que se possa imaginar de ofensivo à dignidade humana, mas aqui estamos nós hoje em regozijo, estamos nós hoje naquilo que foi o cárcere e falando em liberdade, fraternidade e em luta. Houve uma vitória e a vitória foi nossa. Nossa não. Foi da classe trabalhadora que sacrificou a vida. A ela pertence a vanguarda e como vanguarda ela foi levada ao cárcere, torturada e seguida depois pelos intelectuais e pelos religiosos. Então hoje, essa vitória é dos trabalhadores”, finalizou.

 

A exposição fica no Memorial da Resistência (Largo General Osório, 66, Luz), até o dia 23 de fevereiro, e abre de terça a domingo, das 10h Às 17h30.