Debate sobre “rolezinhos” recomenda diálogo com a juventude


06/02/2014

Estabelecer o diálogo com os jovens que organizam e/ou participam dos “rolezinhos”, esta foi a tônica (explicita ou implícita) das argumentações dos participantes do debate “Aspectos dos Rolezinhos nos Shoppings”, que a OAB SP promoveu na noite de quarta-feira (29/01). No Salão Nobre da OAB SP, o Presidente da Comissão de Direitos Infantojuvenis, Ricardo de Moraes Cabezon, coordenou o debate que teve o auditório lotado. Para Cabezon, “é preciso dialogar com os jovens, quem milita na defesa dos direitos desta faixa etária reconhece a importância da conversa”.

 

 

Com o intuito de discutir o tema sob diferentes visões, uma prática democrática usual da OAB SP, os convidados para o debate vieram de distintas áreas do saber. A começar pelo Direito, os participantes foram: Luiz Flávio Borges D´Urso, Conselheiro Federal da OAB, Diretor de Relações Institucionais e Ex-presidente da OAB SP; Martim de Almeida Sampaio, Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB SP; Arles Gonçalves Junior, Presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB SP; Marcelo Barbosa Sacramone, Juiz de Direito (TJ SP), mestre e doutor pela Universidade de São Paulo; e Roberta Densa, advogada, mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Saindo do campo do Direito, a mesa de trabalhos também foi composta por Rafael Alcadipani da Silveira, Professor Adjunto da EAESP-FGV, Pós-Doutorado em Ciências Sociais Aplicadas; e José Augusto Altran, Sociólogo e Cientista Político, Pós-Graduado em Política Internacional. A OAB SP trouxe para o debate a visão dos shoppings, expressa por Nabil Sahyoun, Presidente da Alshop - Associação de Lojistas de Shopping do Brasil.

 

Dialogar é preciso!

 

“Esse debate poderia ter o nome ‘Rolezinhos: aplaudir ou censurar?’. A minha resposta é: nem aplaudir, nem censurar, mas sim procurar entender. A sociedade e os veículos de comunicação não conseguiram entender, num primeiro momento, o que está ocorrendo”, afirmou Luiz Flávio Borges D´Urso, deixando claro que vê neste caso uma lacuna de diálogo, de busca da compreensão destes jovens. Ele ponderou que este diálogo “precisa ser travado com lideranças, com representantes desses movimentos, mas percebi que aí está um desafio, por que há uma absoluta ausência de liderança que possa dialogar com as autoridades instituídas ou lideranças tradicionais da sociedade civil”.

 

Rafael Alcadipani da Silveira, Professor Adjunto da EAESP-FGV, apontou também esta lacuna de diálogo e o fez de forma categórica: “a gente é incompetente para conversar, parece que ninguém sabe conversar no Brasil”. Para ele, parte desta “inabilidade” é explicada pelo perfil da “Justiça brasileira, que ainda trata questões sociais como questões criminais”.

 

Esta visão teve um contraponto que enriqueceu o debate, uma vez que o juiz Marcelo Barbosa Sacramone fez um relato dos fatos que levaram à concessão de liminares relacionadas aos “rolezinhos”, tanto proibitivas quanto as que não vetaram os encontros nos shoppings. O magistrado leu os argumentos apresentados em algumas petições de shoppings de São Paulo que obtiveram liminares proibindo o evento. Sacramone afirmou que a argumentação apresentada “parte de uma incompreensão de uma realidade diferente” e acrescentou que “o argumento da parte contrária não existe no papel, por que não existe um líder dos rolezinhos, e portanto citou-se quem aparecia nos shoppings”. Ele concluiu pontuando o direito à manifestação e o direito de reunião como garantias constitucionais evocáveis em favor dos “rolezinhos”.

 

Outros Aspectos

 

Em um recorte filosófico, a advogada Roberta Densa, colocou conceitos pós-modernos e os dilemas da sociedade atual, em que “vivemos um descrédito quanto às instituições”. “Para engrossar o caldo, chegamos ao tempo do hiperconsumo: não compramos para suprir necessidades apenas, está claro que a pessoa ao comprar se realiza e sente felicidade, aquela sensação”, pontuou Densa para explicar o interesse dos adolescentes pelos shoppings.

 

Com a frase “essas pessoas não aceitam mais o papel de ficarem confinadas no gueto. Elas querem sair do gueto, querem afirmar sua cidadania”, Martim de Almeida Sampaio pontuou aspectos de discriminação presentes na reação da sociedade paulista neste episódio. O Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB SP citou o fenômeno da “geografia da exclusão”, responsável por formar as periferias dos grandes centros urbanos brasileiros, fazendo uma ressalva quanto aos shoppings: “há uma intolerância da sociedade, não podemos jogar tudo nas costas dos shoppings, não podemos ser simplistas”.

 

Nabil Sahyoun, Presidente da Alshop - Associação de Lojistas de Shopping do Brasil, teve espaço para colocar os argumentos dos shopping centers. Para ele, as colocações sobre preconceito dos proprietários dos shoppings foi equivocada, uma vez que “não se pode julgar um empreendimento inteiro por que um segurança ou lojista foi racista com um cliente, é este indivíduo que deve responder por isso”. Explicando os pedidos feitos à Justiça para vetar os “rolezinhos”, Sahyoun argumentou que “houve um rolezinho em que havia a expectativa de comparecerem 12 mil pessoas e é humanamente impossível garantir a segurança de todos com tal contingente”.

 

Por fim, o Sociólogo e Cientista Político José Augusto Altran fez uma avaliação muito peculiar: “deram muita importância ao rolezinho, enquanto as questões principais do país não são discutidas”. Concluindo o debate, Arles Gonçalves Junior, Presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB SP, ponderou que o problema “não é o rolezinho, o problema é o relezão”, afirmando que o problema foi “querer transportar para o mundo real o que se tinha no mundo virtual, no caso, milhares de convidados via Facebook”, o que traria problemas de segurança para o empreendimento.