OAB SP lamenta morte de Ernesto Paulella


26/02/2014

A OAB SP lamenta a morte do advogado Ernesto Paulella , aos 99 anos, em São Paulo. Ele ficou conhecido por ser personagem citado do “Samba do Arnesto”, composição célebre de Adoniran Barbosa. “ Um exemplo de espontaneidade pela vida, que se interessou pela advocacia na terceira idade, quando formou-se com 60 anos, inscrevendo-se nos quadros da OAB já no ano seguinte. Mais do que vitalidade e perseverança, deixa a lição de que sempre é tempo de concretizar os sonhos”, disse o Presidente da OAB SP, Marcos da Costa. O enterro acontece no Cemitério do Araçá, às 12 horas, desta quinta-feira (27/02).

 Na edição de maio de 2011, o Jornal do Advogado publicou uma entrevista ,na qual falou da profissão, música brasileira, do amigo Adoniran Barbosa, da vida e também da relação com a OAB SP – especialmente por meio da CAASP.

 Em homenagem a este personagem eterno do samba paulistano e advogado, a OAB SP volta a publicar, em seu portal, a entrevista com Ernesto Paulella (1915 – 2014).

 Matéria publicada originalmente no Jornal do Advogado, edição de maio de 2011

 Quando a reportagem do Jornal do Advogado chegou ao pequeno sobrado, na Mooca, Ernesto Paulella encontrava-se imerso em livros de matemática. “Cogito, ergo sum”, disse ele em latim, parafraseando Descartes. “Penso, logo existo. A matemática nos obriga a pensar, por isso é fascinante”, observou o senhor de 96 anos. A inabalável volúpia pelo conhecimento levou-o a formar-se em Direito aos 60 anos, e o amor à profissão almejada desde a juventude o fez exercê-la até os 90. “Corri atrás do aprendizado do Direito quando já tinha mulher e filhos, e exerci a advocacia como um leão durante 30 anos”, conta.

Só mesmo um AVC (acidente vascular cerebral) para interromper tão sonhada carreira, que teimava em seguir mesmo ante a hipertensão e uma série de problemas circulatórios. “Mas o derrame me tomou parte dos movimentos. Quando fui acometido, ainda trabalhava na advocacia, trazia o pão e o leite para casa”, recorda-se.

 

Memória impecável, o advogado nada esquece. Sua lembrança mais viva remete a um dos mais brilhantes capítulos da música popular brasileira. Ernesto Paulella é ninguém menos que o personagem do “Samba do Arnesto”, obra-modelo da genialidade de Adoniran Barbosa. Antes que se indague, ele apressa-se a explicar: “A troca do ‘E’ pelo ‘A’ deve-se ao estilo único do Adoniran. Tinha de ser Arnesto, com ‘A’, senão não dava samba. Já a história contada na música é fruto de sua mente fértil e prodigiosa de compositor: eu nunca convidei ninguém para um samba em minha casa no Brás!”. Outra curiosidade: o parceiro de Adoniran no “Samba do Arnesto”, Alocin, é na verdade Nicola – a inversão das letras é outro rompante criativo do sambista, cujo verdadeiro nome era João Rubinato. Para o amigo, idiossincrasias de um gênio.

 

Paulella conheceu Adoniran Barbosa em 1938, na porta da Rádio Record, então à Rua Conselheiro Crispiniano, no centro de São Paulo, para onde fora levado por Nhá Zefa, cantora de música caipira de grande sucesso na época. Longe de ser músico virtuoso, tocava violão acompanhando os protagonistas dos programas de rádio e em restaurantes, de modo a completar sua renda de vendedor da Recorde S.A. Indústrias Químicas. Jura que nunca foi boêmio, pois tinha de acordar cedo para vender Cera Recorde. Pelas rádios e outros ambientes musicais, Paulella e Adoniran tornaram-se amigos de encontros ocasionais e admiradores mútuos. “Nossa convivência era esporádica, mas quando nos encontrávamos grudávamos um no outro. Da parte dele, era um tal de contar histórias e mais histórias de samba e boemia; de minha parte, contava-lhe histórias e mais histórias da minha vida diuturna de trabalhador”, rememora.

 

O sonho nunca escondido de se tornar advogado valeu a Ernesto Paulella, já nos tempos de violão e Cera Recorde, o apelido de “Acadêmico”, conferido pelo mais espirituoso pregador de apelidos do cenário artístico brasileiro, justamente Adoniran Barbosa. E acadêmico tornou-se de fato, formando-se em Direito nas Faculdades Integradas de Guarulhos em 1975. “O Direito me trouxe a satisfação da alma que é o aprendizado do seu conteúdo subjetivo”, diz.

Paulella advogou ininterruptamente até 2005, atuando na área cível, principalmente em Direito de Família. “Eu e minha família nunca fomos abastados, sempre lutamos para ter 20 cruzeiros no bolso”, enfatiza. Com o passar dos anos, começaram a surgir as dificuldades decorrentes da hipertensão e da má circulação sanguínea, culminando no derrame em 2005, quando completara 90 anos.

 

Viúvo desde 1992, ele mora com a filha Valéria, também viúva e aposentada. O que ambos ganham não é suficiente para manter as despesas da casa e do tratamento contínuo a que Ernesto Paulella tem de se submeter, em câmaras hiperbáricas – única maneira de conter os edemas que lhe acometem as pernas. Há três anos, ele recebe auxílio pecuniário mensal e cesta básica da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo. “Se não existisse a CAASP eu estaria num mato sem cachorro. A Caixa é constituída por pessoas cuja formação é voltada para a ajuda ao próximo”, agradece.

 

Com tudo isso, Ernesto Paulella mantém um bom humor e uma disposição raros. Além dos livros de matemática, estuda a língua portuguesa e ainda folheia obras jurídicas. Antes de a reportagem deixar o sobrado da Mooca, ele pede licença para dedilhar ao violão as notas do “Samba do Arnesto”, e o faz com graça e precisão.