Direito Desportivo e Mídia


08/05/2014

Ressaltando a importância do futebol como instrumento de cidadania, o Presidente Marcos da Costa abriu o Simpósio de Direito Desportivo da OAB SP e ACEESP com o tema “O Direito Desportivo e a Mídia Desportiva Pré-Copa”, evento em parceria com a ACEESP (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo), na última sexta-feira (25/4), na sede da Ordem.

 
“Esse simpósio vem se somar a outras iniciativas do mundo esportivo, com bandeiras comuns, numa visão da Ordem que o esporte em geral, e o futebol em especial, é instrumento de cidadania. E devemos que o momento é importante para o país, um momento pré-Copa, mas congrega discussões que ultrapassam esse espírito da Copa”, destacou Marcos da Costa.

Mídia Desportiva


A segunda parte do  Simpósio “O Direito Desportivo e a Mídia Desportiva Pré-Copa”,  foi aberto pelo jornalista e advogado Pedro Bassan, da Tv Globo, que  trouxe o tema “Mídia Desportiva Internacional”. Destacando que cobre Copas do Mundo, desde 1998 (França), e Olimpíadas, desde 1996 (Atlanta), Bassan explicou que o modelo de negócio destas duas competições voltou-se para um grande show televisivo e que para isto estes eventos hoje são organizados, tendo as Tv´s como clientes.

 

Voltando no tempo, Pedro Bassan lembrou que até a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, foi a que deu início ao processo de uniformização da competição e que antes “cada país organizava mais ou menos como organização seu próprio campeonato de futebol, mas com as 20 ou 30 seleções convidadas”. Para ele, este fator explica as exigências que a Fifa faz e que “muitas vezes são descabidas para o grau de desenvolvimento e recursos que um país pode gastar”, mas ponderando que “muitas dessas exigências têm fundamento e são louváveis: a padronização dos estádios é por que a Fifa constatou – pelo modelo dos estádios europeus -  que o padrão de segurança do público (número de acessos, saídas e capacidade máxima) são avanços necessários”.

 

Fazendo um paralelo com as Olimpíadas de 2008, muito bem organizada, mas sob um regime ditatorial e de força, Pedro Bassan apontou um legado para a Copa 2014, no Brasil: “temos aqui uma democracia cada vez mais sólida e os questionamentos que fazemos à Copa são vistos pela imprensa estrangeira como saudáveis. Apontam em editoriais que o Brasil é o primeiro país que questiona as arbitrariedades da Fifa, coisa que nem mesmo a Alemanha e o Japão ousaram fazer, e essa maturidade da nossa sociedade é sem dúvida um legado da Copa”.

 

 

O jornalista Alberto Helena Júnior, do canal SporTv, falou sobre a “Responsabilidade da Mídia Desportiva Pré-Copa e Pós-Copa” e citou que uma das principais colaborações que o cronista esportivo pode dar para a sociedade vem de uma postura crítica com relação às atitudes reprováveis: “quando você deixa de criticar tudo que seja passível de estimular a violência, você está colaborando para que haja mais violência”.

 

Por outro lado, Helena Júnior também fez uma análise do comportamento da mídia esportiva atualmente, lamentando que hoje sejam poucos os formadores de opinião, entendendo que parte dos jornalistas têm se pautado em apenas repetir e ecoar o que é dito nas ruas, pela opinião pública. “Estou preocupado por que vejo que este processo vai se degradando cada vez mais e não há uma preocupação neste sentido, a única preocupação é não melindrar esse, não melindrar aquele poderoso; não vejo um trabalho em cima do que é a função e a responsabilidade do jornalista com a sociedade, sua comunidade”, lamentou.

 

Para ele, esta tendência de simplificação exagerada das coberturas esportivas, sem procurar “mudar a cabeça das pessoas, fazê-las pensar” provoca reflexos dentro de campo. “O futebol é um reflexo do cotidiano” afirmou, estendendo o raciocínio: “a violência nos estádios está relacionada com a violência no campo: agora a gente assiste a um jogo de futebol no Brasil e há somente 40 minutos de bola em jogo, 60 faltas, 80 passes errados, não entendo como há quem pague ingresso para ir ao estádio”.

Novos desafios, velhos conflitos

O jornalista Roberto Cabrini, que comando o programa SBT Repórter, lembrou que começou a carreira no jornalismo esportivo, ainda no interior, em Piracicaba (SP). Falando dos dias de hoje e sob o prisma do jornalismo investigativo, Cabrini acredita que “estamos diante de um dilema: continuar alimentando velhas estruturas do esporte ou enfrentar as mazelas de frente e, eventualmente, provocar algumas antipatias, mas deixando um país melhor”. Para ele, o esporte brasileiro – guardadas proporções – reproduz o modelo do Brasil de capitanias hereditárias, injusto e com poucos donos.

Roberto Cabrini exibiu resumos de três programas em que investigou questões relacionadas ao futebol brasileiro, destacando as máfias instaladas nas categorias de base de alguns clubes, a violência das torcidas organizadas e a possibilidade de pagamento de propina para convocação de jogadores para a Seleção Brasileira. Apontando sua crítica para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e Federações Estaduais, Cabrini condenou o sistema eleitoral destas instituições, explicando que “os que votam, não são aqueles que genuinamente fazem o esporte, mas sim castas, um elite e isso só reproduz a corrupção”.

 
Coube ao apresentador do programa Redação Sportv, André Rizek, encerrar o Simpósio “O Direito Desportivo e a Mídia Desportiva Pré-Copa”. Ele trouxe o tema “A Influência da Mídia Desportiva na Sociedade” e foi enfático: “a influência da mídia na sociedade é cada vez menor e eu acho isso ótimo”.

Ele explica, dizendo acreditar que hoje há uma massa crítica de leitores e consumidores de notícias, graças aos Blogs (na internet) e a formação das pessoas, que vem melhorando. Respondendo às perguntas dos  convidados, Rizek disse ao Presidente da OAB SP, Marcos da Costa, que “os atletas enxergam os jornalistas como inimigos, como o outro lado, como os caras que estão sempre lá para distorcer o que eles vão falar e muito disso é por que cobramos uma postura – ética – dos jogadores de maneira que não cobramos de um prefeito, vereador e políticos em geral”.

O jornalista do Sportv falou da influência da mídia na direção dos clubes, especialmente neste momento em que se contesta a qualidade dos jogos de futebol no Brasil: “o papel do jornalista é traduzir isto em números [...] e quando você começa a expor esses dados e a falar todos os dias na Tv sobre isso, acredito que os clubes comecem a refletir e a cobrar dos seus técnicos e jogadores um espetáculo melhor. Nosso papel [da mídia] é nesse sentido, é nisso que podemos influenciar”, concluiu.

Outro ponto importante colocado por André Rizek diz respeito a desinformação e a propagação de notícias plantadas ou enganosas. Para ele o jornalista deve “ter a humildade de se corrigir constantemente. Por exemplo, eu sou um analfabeto jurídico e tento partir da premissa que o jornalista é aquele que não sabe de nada, mas acha quem sabe. Antes de dar opinião eu procuro conversar com alguém, ouvir quem sabe e é assim que eu tento trabalhar todos os dias”.

Compuseram a mesa diretora do simpósio, além do Presidente da OAB SP, o Presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB SP, Patrick Pavan; o Presidente da ACEESP, Luiz Ademar; o Presidente da CAASP, Fábio Romeu Canton Filho; o Coronel Marcos Cabral Marinho, Presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol; Toninho Nascimento, Secretário Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor do Ministério dos Esportes; Orlando Daniel de Lima, Advogado, Jornalista, Coordenador Institucional de Relações com a Imprensa da Comissão de Direito Desportivo da OAB SP; Erick Castelhero, Vice-Presidente da ACEESP; Carlos Roberto Fornes Mateucci, Diretor Tesoureiro da OAB SP; Luiz Fernando Baliero, Presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Lívio Enescu, Vice-Presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB SP; o Advogado Caio Medauar, representando o presidente do IBDD (Instituto Brasileiro de Direito Desportivo); o Conselheiro Seccional Edvaldo Mendes da Silva; e José Valdemar Romaldini Júnior, Presidente da Subsecção de Ribeirão Pires.