Um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil


16/09/2015

Ricardo Sennes Saídas para a Crise
O economista Ricardo Sennes criticou o protecionismo sob o qual o país vive e alertou que, paralelamente a isso, não podemos continuar pensando mais em pré-sal do que em educação

Em meio à efervescência do cenário - sobretudo após a retirada do selo de bom pagador do país, pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s, na semana passada -, ganha urgência a busca de saídas para o momento do Brasil. É evidente que o número de perguntas sem resposta cresce, mas a boa notícia, mesmo em meio à crise econômica, política e moral que vivemos, é que a mobilização na busca por diagnóstico e soluções parece seguir o mesmo ritmo. Para especialistas que vieram à sede da OAB SP nesta terça (15/9), debater ‘Saídas para a Crise’, o país precisa de um novo modelo de desenvolvimento. 

O seminário foi realizado pela Secional paulista da Ordem ao lado da Fundação Padre Anchieta, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). “Nós vivemos um fim de ciclo importantíssimo, no qual temos que preservar o que conquistamos e questionar o que não fez sentido nas decisões tomadas nos últimos anos”, diz o economista Ricardo Sennes. “A crise não resulta de problema de DNA por causa da colonização portuguesa, como historicamente muitos gostam de dizer. Foi construída a partir de decisões que o próprio país tomou e é hora de rever um monte delas”.

O economista participou do segundo painel da manhã desta terça, com o tema ‘O potencial do Brasil’. Ao seu lado estiveram o empresário Jorge Gerdau e o presidente da Sociedade Rural Brasileira, Gustavo Junqueira. Para Sennes, é preciso ir à raiz do modelo de desenvolvimento. “O nosso desafio é construir maioria política, democrática e que consiga contemplar simultaneamente toda a diversidade que esse país tem, do ponto de vista de desigualdade regional e social, em cima de um modelo econômico eficiente”, disse. “A discussão vai além das soluções momentâneas, como a retomada da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). O que acho é que não podemos gastar mais tempo pensando em pré-sal do que em educação. E fazemos isso”, citou.

Ao fazer críticas ao modelo brasileiro, Sennes citou o “exagerado protecionismo” e ressaltou a necessidade de modernização das leis. “Há ene formas de medir isso (protecionismo). Uma delas é a proporção de comércio exterior em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). Ao fazer isso dá para ver que somos um dos países mais fechados do mundo”. Fez outras considerações: “temos um Estado que assumiu compromisso constitucional e daí vem algumas dificuldades. Entre elas, para resolver o ajuste fiscal necessário neste momento. Parte do ajuste tem a ver com opção política do governo, mas há uma parcela significativa que não é possível ser feita porque é derivada de obrigações constitucionais. Temos que mudar leis que acharmos necessárias se o modelo não está sustentável”.

Governança corporativa no meio público

Jorge Gerdau
O empresário Jorge Gerdau citou os ajustes fiscal e o político como indispensáveis para que o Brasil retome o rumo do crescimento

Os debatedores voltaram a destacar algo bastante discutido que é a necessidade de priorizar eficácia de gestão pública e direcionamento de recursos para áreas fundamentais. O empresário Jorge Gerdau listou cinco: saúde, educação, segurança, mobilidade urbana e logística. “São absolutamente necessárias para o desenvolvimento”, disse. O empresário destacou, ainda, a importância de elevar poupança e melhorar a administração pública para que o país consiga equacionar suas necessidades. “Algo que não se discute no setor público e é eficaz em processo de gestão é governança corporativa”, complementou.

No curto prazo, o ajuste fiscal e o político foram citados pelo empresário como caminhos importantes para a retomada do rumo. “O maior tema hoje no nosso debate é o ajuste político. Não tem cabimento vivermos uma situação tão delicada como a fiscal e o ministro (da Fazenda, Joaquim Levy) não conseguir avançar por conflitos políticos. Isso nos leva a um atraso”.

Gustavo Diniz Junqueira Saídas para a Crise
Gustavo Diniz Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira, pontuou que precisamos de um novo modelo de desenvolvimento, mais moderno

Para Gustavo Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira, o Brasil precisa “voltar à Constituição”. “Significa discutir novamente, o que é bom e o que não é, o que precisa ser modernizado, e definirmos um novo modelo de desenvolvimento para o país”, disse. “A sociedade ainda acredita que é possível encontrar solução pelo Estado, mas o Estado não vai fazer nada. Será preciso coragem e humildade para admitir que chegamos a um momento de ruptura, desmontá-lo e remodela-lo”. O dirigente cita meritocracia, melhora da produtividade, integração à economia mundial e venda dos ativos estatais como focos onde apostar para “transformar potencial em potência”.

Fim de ciclo

Apesar do momento vivido, o economista Ricardo Sennes disse ser importante não esquecer que o país já viveu outros momentos duros e que levaram a mudanças positivas ao longo da trajetória. “Precisamos lembrar que, a duras penas, chegamos em um consenso sobre como estabilizar a macroeconomia do Brasil desde os anos 1990, fizemos parcialmente uma reforma do Estado e também forte reforma nas instituições que fazem a gestão macroeconômica do país. Temos tribunais de contas funcionando razoavelmente bem, instituímos um Banco Central que, apesar de não ser autônomo do ponto de vista formal, operacionalmente é, e temos várias agências reguladoras. Há muito por fazer, mas não se pode esquecer que o país avançou muito dos anos 1980 para cá”.