Primeira mulher presidente de Subseção conta os bastidores de sua eleição

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25/04/2019

Primeira mulher presidente de Subseção conta os bastidores de sua eleição

Símbolo do empoderamento feminino, a sorocabana Heloísa Santos Dini foi a primeira mulher a dirigir uma Subseção da OAB no Brasil, em Sorocaba, tendo presidido também a OAB de Votorantim. Porém, apesar de seu pioneirismo, conta, o espaço conquistado por elas ainda é ínfimo. “Sabemos que temos mulheres perfeitas para assumirem as mais elevadas presidências, até mesmo a da OAB Federal”, diz, para justificar que o segredo da conquista está em primar pela excelência.

– Em 1984, os jornais noticiaram o fato de uma mulher – com chapa formada apenas por mulheres – ter sido eleita para presidir uma Subseção da OAB. O que motivou sua entrada na disputa?

Heloísa Dini – Inicialmente, devo dizer que sou a mais velha de seis irmãos, e, por isso, precisei auxiliar minha mãe a criá-los, em especial os três últimos. Isso foi muito bom, pois fiquei “programada” para ajudar o próximo, e nisso me aprimorei. A bem da verdade, toda minha família é assim. Desde o início de minha advocacia – lá se vão 45 anos! –, estava na Sala da OAB do nosso fórum. Sempre queria melhorar alguma coisa, até que a diretoria, já confiante em meu trabalho, permitia algumas intervenções de minha parte. Também passei a fazer parte da diretoria da Associação dos Advogados de Sorocaba, especialmente para a realização de palestras. Nessa atividade, trouxe os mais cintilantes luminares do nosso Direito, entre tantos Evandro Lins e Silva, Theotonio Negrão, Washington de Barros Monteiro, Nascimento Franco, e outros do mesmo altíssimo nível; até o ex-presidente Michel Temer, sendo certo que o auditório nunca tinha acomodação para tantas pessoas ligadas ao Direito, incluindo juízes, promotores e muitas autoridades. Assim, passados alguns anos, ousei candidatar-me à presidência da nossa 24ª Subseção da OAB SP, sendo vencedora. A luta pela presidência foi aguerrida, e tem tanta história que merece um livro para ser contada. Ter decidido por uma chapa só de mulheres foi impensado. Com a censura de um grande número de colegas, considerei que não deveria ter feito isso, mas também não poderia voltar atrás, por isso transitei pela campanha muito preocupada. Os colegas homens que nos apoiavam brincavam dizendo: “Vou votar nas mulheres porque elas dão beijinhos”. Claro que tudo de forma respeitosa e amigável.

– A vitória foi apertada, por uma diferença de apenas três votos. A senhora avalia que o fato de ser uma chapa composta por mulheres para o comando da OAB Sorocaba tenha motivado essa disputa tão acirrada? Que tipo de resistência enfrentou naquela época?

– Certamente padecemos com o preconceito. Sofri traições, ofensas perversas e injustas, tudo muito doloroso, mas felizmente as cabeças pensantes nos apoiavam. Os juízes e promotores, que acompanhavam ao longo dos anos o meu trabalho silencioso, discreto e eficiente nas diretorias anteriores, e também na Associação dos Advogados de Sorocaba, foram grandes cabos eleitorais.

– Passados 35 anos, como analisa aquele momento, considerando que ainda hoje é baixa a participação feminina na vida institucional do Sistema OAB?

– Eu fico muito triste de ter sido, até o presente, a única mulher presidente da 24ª Subseção da OAB SP. Esse foi o motivo de ter trabalhado intensamente na campanha de Maria Cláudia Tognocchi, notável advogada e diretora da nossa OAB na gestão passada, capacitada para o honroso cargo. O que em nada desmerece a diretoria vitoriosa, composta de pessoas importantes, em especial o atual presidente, Márcio Roberto de Castilho Leme, que vem se esmerando em significativas realizações, tendo duas diretoras mulheres: Juliana Mazzei e Giovanna Maldonado. Sabemos que temos mulheres perfeitas para assumirem as mais elevadas presidências, até mesmo a da OAB Federal, e, se eu fosse alguma delas, já estaria fazendo propaganda de meus feitos, mesmo iniciando a tarefa subliminarmente. Confio que o segredo é iniciar a autopropaganda. Não vejo vaidade nisso, mas sim um desejo sagrado de maiores realizações. E é inegável que a mulher, com o instinto materno que a distingue, tem uma visão mais nítida e distanciada do que os homens.

– Comandou a OAB em Sorocaba e depois foi a primeira mulher a dirigir a OAB recém-criada em Votorantim. Quais os desafios enfrentados e os momentos mais marcantes nesse processo?

– Os desafios são sempre os mesmos: a agressividade normal ou perversa dos concorrentes. Mas, quando venci a eleição, os descontentes ficaram grandes amigos, e o são até o presente. Quando eu era presidente, Votorantim fazia parte da 24ª Subseção da OAB SP, bem como outras cidades pequenas ao redor. Dependentes de Sorocaba, os colegas de Votorantim almejavam o desenlace, e como conheciam e aprovavam o meu trabalho, não foi difícil a vitória. Assim, acabei sendo também a primeira presidente da 188ª Subseção em Votorantim. As realizações dessa gestão foram tão significativas que todos me pediam nova candidatura, mas considerei que Votorantim merecia um presidente votorantinense, e assim foi. Tenho a imensa felicidade de até o presente ter o imenso carinho desses queridos colegas.

– Na sua história fora da carreira na advocacia teve participação em movimentos das mulheres em busca de igualdade de gênero? Caso não, por que não se envolveu com esse tema?

– Não, pois naquele tempo ninguém falava nisso, não mesmo. Não me lembro de nenhuma advogada que demonstrasse essa condição. Mas se essa questão fosse aflorada, como é hoje, e se necessário, sem dúvida estaríamos batalhando até mesmo no sentido da proteção.

– Um ponto curioso nas matérias jornalísticas da época de sua eleição, é mencionarem que a chapa composta só por mulheres “não se tratava de feminismo”. Havia oposição ao termo “feminismo” e isso atrapalharia as candidatas mulheres?

– Como contei, quando, pela repercussão danosa da época, me dei conta que não deveria ter feito uma chapa só de mulheres, já era tarde. Modificar seria demonstrar fraqueza, por isso decidi mantê-la. De forma alguma houve “feminismo”, e se houve não percebi! Felizmente, ganhamos a eleição e deu tudo certo. Quero dizer que minha gestão não seria a mesma sem o apoio das diretoras Maria Helena do Amaral Camargo, Sheila Silva Monteiro e Yone Petrere Simão. A essas notáveis colegas e verdadeiras amigas, a minha eterna gratidão!

– Em que momento ser mulher foi positivo e quando teve de elevar a voz para se fazer ouvir?

– Tudo demonstrou ser positivo quando começaram as realizações, inimagináveis até então. A diretoria estadual, então presidida por José Eduardo Loureiro, nos prestigiou em tudo. Pouco antes da minha posse solicitei à Secional novos móveis e máquinas etc. para a nossa Sala da OAB, pois os que haviam já estavam velhos, muitos quebrados, e ele concordou de imediato. Assim, no fim de semana que antecedeu o primeiro dia da nossa gestão, o juiz Klinger Muarrek, então diretor do fórum, autorizou a entrada de novos móveis, novas cortinas e pintura das salas, e assim foi feito. Na segunda-feira, quando os advogados chegavam, ficavam perplexos, verdadeiramente encantados. A partir daí tudo foi positivo! Os momentos de elevar a voz foram apenas quando era necessário enfrentar as autoridades para defender os colegas por terem sido ofendidos. Não sei precisar se o positivo foi antes ou depois. Mas afirmo que depois foi tudo maravilhoso.

– Quais os conselhos que daria hoje às mulheres que entram na política de Ordem, buscando representatividade na classe e no âmbito do exercício da advocacia?

– Considerando minha experiência, afirmo que meu conselho é promover realizações contundentes. Mesmo na excelência, sempre há o que melhorar, fazer a diferença. Mas tudo isso envolvido no mais puro amor pelo que faz. Com o verdadeiro amor inexiste vaidade, e as vitórias são mera consequência.

– Durante sua gestão houve um fato que marcou sua trajetória. Um jornal local atribuiu-lhe suposta falsificação de documentos na venda de automóvel. O jornal foi processado e teve de se retratar. Neste episódio, o fato de ser mulher contribuiu para o posicionamento mais agressivo da publicação?

Sem dúvida nenhuma! Esse jornal, de prestígio na cidade e região, faz parte de uma fundação maçônica, que envidou absolutamente todos os seus recursos para a vitória da chapa concorrente. A derrota lhes foi mortal! A falsa e perversa notícia foi a maior dor de minha existência, só superada pela perda de meu filho. A injustiça me deixava aturdida, e doía demais o constrangimento com os colegas e autoridades nas idas ao fórum, bem como em meu dia a dia. A diretoria do jornal era perversa, mas o tempo passa e põe tudo no lugar. Depois de um curto tempo, deparei-me com o diretor-presidente, e ele constrangido veio me pedir perdão. Eu disse que não perdoava porque tem arrogância no perdoar, mas que entendia que na ocasião ele fez o que sabia, e que sua iniciativa o enaltecia. Doeu, mas fizemos as pazes. Hoje sou muito amiga das diretorias que se sucedem, e há décadas todas me prestigiam e continuam me prestigiando. Completando, não entendi essa agressividade do jornal por ser mulher, mas, como citado, porque eu venci a chapa que o jornal apoiava.

– Há avanços significativos para as mulheres na vida institucional, como, no âmbito da Ordem, a obrigatoriedade de 30% de mulheres nas chapas diretivas, a partir de 2021. Acha que essas práticas são positivas?

– Esse é um dos grandes avanços da OAB, que colabora muito para o reconhecimento da igualdade. Magnífica providência, que, sem dúvida, incentiva a presença das mulheres na liderança da advocacia. Sem preconceito aos homens, com seus inegáveis valores, reitero que o instinto materno, como disse, faz toda a diferença. As mulheres que lideram cargos na nossa OAB comprovam a assertiva.

– O que pensa do impedimento de ingresso nos quadros da OAB em todo o país aos homens com condenação por violência contra a mulher? Trata-se de um avanço, uma política afirmativa, ou não?

– Ideia notável, genial mesmo! Mas só acabaremos com essa violência não apenas com as condenações de toda espécie, mas quando deixarmos de criar homens como seres que não podem demonstrar amor, que têm de ser fortes e agressivos. Felizmente, parece que existe uma nova educação nesse sentido, e a passagem dos anos poderá extinguir esse nefasto hábito de tempos memoriais.

Pé Jornal Março 2019