O Bom Juiz-Poeta

Fonte: Grandes Advogados, Grandes Julgamentos - Pedro Paulo Filho - Depto. Editorial OAB-SP

Levi Carneiro

Em agosto de 1937, a Academia Brasileira de Letras abriu as suas portas para receber Levi Carneiro. Um advogado, exclusivamente um advogado, como escreveu Ernesto Leme. Naquela ocasião, seu chefe incontestável. O organizador da profissão. O idealizador da Federação dos Institutos Regionais. O criador da Ordem dos Advogados do Brasil.

Na sua posse, no pequeno Trianon, proclamou: “Se tivesse de ceder à tradição maliciosa, que me obrigaria a justificar-vos o haverdes elegido, somente poderia dizer-vos que em mim honrastes todos os que, na minha profissão, procuram conciliar a atividade profissional com o trato das idéias e das doutrinas”.

Realçou o sacerdócio da advocacia “na sua beleza, na sua força nas suas aflições; no que comporta de lealdade, abnegação, desinteresse; no que proporciona de independência, no que ensina de tolerância”.

Faltou dizer – completa Ernesto Leme – o quanto exige, para ser fiel e eficientemente exercida, do conhecimento da língua. Mostrando que ela requer devotamento de todas as horas, de toda a vida, Levi Carneiro a definiu: “Profissão em que me vou consumido...”.

Teria naquela altura já visitado a Holanda o notável advogado?

“Mais tarde foi juiz na Corte de Haia.

Entre guias de viagem, não dispensou ele por certo os ‘souvenirs’ de Route, de Henri Barboux, duplamente colega, advogado e acadêmico.

E indo a Amsterdã saudar Spinoza e admirar Rembrandt, sem dúvida procurou o pequenino quadro maravilhoso e sugestivo da antiga Galeria Six.

Anotaram-no assim as recordações citadas: um homem, de pé, contempla com meditadora atenção, vela a arder, em cima da mesa. A luz jorra, de certo modo, da obscuridade. Lêem-se essas profundas e melancólicas palavras: ‘Aliis in serviendo consumor’ (eu me consumo ao serviço dos outros).

Não poderia exprimir de forma mais característica e melhor o que é advocacia. É divisa lapidar. Está ali o advogado.

No seu discurso na Academia, discorrendo sobre a advocacia, frisou Levi Carneiro: “Profissão em que me vou consumindo”... ao serviço dos outros.

O advogado serve aos particulares, à Ordem, à Lei, ao Direito. À Pátria. À Humanidade. E para servir a tudo e a todos, serve principalmente à língua em que discursa ou fala com apuro, clareza, correção, elegância e consciência.”