O Presidente que Advogava

Fonte: Grandes Advogados, Grandes Julgamentos - Pedro Paulo Filho - Depto. Editorial OAB-SP

Prudente de Moraes

Prudente José de Morais Barros nasceu em Itu em 1841, diplomando-se pela Faculdade de Direito de Universidade de São Paulo. Foi deputado à Assembléia Provincial de São Paulo (1878) e da Assembléia Geral do Império (1885).

Foi governador de São Paulo, depois de proclamada a República; após, elegendo-se senador, integrou a primeira Constituinte Republicana em 1890. Foi eleito presidente do Congresso Nacional, perdendo para Deodoro da Fonseca a primeira eleição para presidente da República, cargo para o qual foi eleito no período de 1894 a 1898, com o apoio de todas as forças políticas nacionais, tornando-se o primeiro presidente civil, eleito por sufrágio direto.

Durante o seu mandato ocorreram conflitos entre os florianistas, partidários do governo militar, e os civilistas, que eram os republicanos moderados. No curso de seu governo houve o término da Revolução Federalista e a anistia concedida aos seus participantes (1895), os movimentos de insubordinação na Escola Militar (1895), a revolta de Canudos e seu esmagamento, a solução da questão dos limites com a Argentina (Palmas) e com a França (Amapá) e a ocupação definitiva da Ilha de Trindade, que era reivindicada pela Inglaterra.

Prudente de Morais afastou-se da Presidência da República de novembro de 1896 a março de 1897, por motivos de saúde. Reassumindo-a, foi vítima de um atentado no qual perdeu a vida o seu ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt. Deixando a Presidência da República, Prudente de Morais decidiu reabrir a sua banca de advogado em Piracicaba.

Comunicou a sua resolução ao velho companheiro e grande advogado João Sampaio, convidando-o para ser seu colega de escritório. Reinstalados, ambos se atiram às lides forenses com zelo e dedicação, reaproximando os velhos e atraindo novos clientes.

“Simples cidadão, o ex-presidente da República estuda processos, dá pareceres, redige petições, alega, arrazoa, luta pelos direitos cuja defesa lhe é cometida, com o mesmo ardor de sempre, com o mesmo cuidado que sempre pôs e porá sempre em todos os atos de sua vida.

Porque, regra geral, as causas em andamento não exigem a sua presença na Tribuna do Júri, é a João Sampaio que está confiada esta parte.

A contabilidade do escritório, Prudente continua a fazê-la, com todo o minucioso cuidado que lhe é peculiar, que faz parte de sua personalidade, que lhe é um hábito enraizado.

Debita e credita aos clientes a parcela mais insignificante: um selo para uma petição ou para um recibo é motivo para que faça todos os lançamentos necessários em um livro.

Continua o mesmo nas contas que apresenta: não se esquece de mencionar que ‘deixou de pagar os peritos’, quando por amizade fazem estes questão de não lhe cobrar as peritagens – apesar de serem essas diligências computadas no total das custas que se fazem constar dos autos...”.

“Aonde o senhor vai, pai?”

“Vou a uma audiência...”

“Audiência de quem?”

“Do juiz de Paz.”

“Mas... um ex-presidente da República!...”

“Que é que tem, Nhozinho? Mandei o João Sampaio a Santa Bárbara, a serviço político. E vou substituí-lo na audiência.”

“Não, Senhor, papai. Tenha paciência. O senhor não vai...”

“Mas tenho que defender uma causa que me foi confiada. Não posso deixar de ir.”

“Eu irei, papai. Tenha paciência. Não fica bem...”

“Por eu ter sido presidente da República? Mas todo trabalho é nobre, Nhozinho...”

“Está bem, Nhozinho, está bem...”

Faz uma ligeira pausa e acrescenta risonho e bem-humorado:

“Mas tome cuidado. Não vá fazer alguma asneira!”

Faleceu em Piracicaba em 1902.