Copa sem racismo e sem violência

Marcos da Costa

Com o início da Copa do Mundo de futebol duas questões preocupam, dentro e fora do campo: a violência e o racismo, duas manifestações que repudiamos e que contrastam com o espetáculo que desejamos ver nas arenas das cidades-sede brasileiras.

Somente este ano, grandes craques brasileiros foram vítimas de atitudes racistas e discriminatórias, dentro e fora do País: Neymar, Daniel Alves, Tinga e Arouca. Certamente, até o rei Pelé, ou o “Diamante negro” Leônidas da Silva, dentre outros craques, conheceram o ultraje do racismo, que deve ser reprimido nos campos brasileiros com o cumprimento do Estatuto do Torcedor ( Lei nº 10.671/03), que proíbe que o torcedor leve cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo, arremesse objetos, de qualquer natureza, no interior do recinto esportivo; porte ou utilize fogos de artifício ou incite e pratique atos de violência no estádio.

A violência vinculada ao futebol é outro mal que o Brasil está enfrentando sem chegar a resultado satisfatório. O caso do Recife, onde um torcedor foi atingido por um vaso sanitário atirado do alto da arquibancada do estádio do Arruda, não é o primeiro com morte de torcedor neste ano e também engrossa estatística em que o Brasil se põe – de maneira vergonhosa – entre os líderes mundiais.

Precisamos construir alternativas para vencer a violência e o racismo nos estádios e o exemplo dos Estados Unidos chama a atenção. Um ponto interessante é a prerrogativa que os administradores de estádios têm de banir torcedores violentos ou com comportamento inadequado, depurando positivamente o público que frequenta esses locais.

No ano de 2013, dois casos de torcedores banidos demonstram o rigor aplicado pelos administradores dos estádios. Um exemplo aconteceu na cidade de Bufalo, em que um rapaz subiu no parapeito do nível mais elevado da arquibancada para escorregar sentado, como em um corrimão, e caiu no nível inferior da arquibancada, ferindo outro torcedor. Essa atitude foi considerada inadequada e o rapaz não entrará mais naquele estádio pelo resto da vida.

Em outro caso de banimento de torcedor, desta vez na cidade de Denver, houve uma briga antes da partida, ainda no estacionamento do estádio, e todos os identificados não poderão mais assistir aos jogos naquela arena.

Em nenhum dos dois casos houve morte ou pessoas feridas com gravidade, mas o tratamento rigoroso diante de atitudes reprováveis de menor vulto é que é responsável pela paz que reina nos eventos esportivos nos Estados Unidos, inclusive sem divisão de torcidas nos estádios e com pessoas circulando livremente com as camisas de seus times. Claro que a outra ponta desse enfrentamento é uma maior eficiência em identificar e punir – na esfera penal – os torcedores violentos.

Cumprindo seu papel institucional de levantar bandeiras importantes para a sociedade brasileira, a OAB SP deu início – em março passado – a uma campanha em defesa da paz no Futebol, procurando reunir diversos setores e representantes da sociedade para debater soluções possíveis para esse problema; bem como despertar uma consciência para a cultura de paz dentro e fora dos estádios, que conta com apoio da CBF, Federação Paulista de Futebol, Clubes, Associação dos Árbitros e a Associação dos Cronistas Esportivos.

Os exemplos que deram certo no Exterior podem servir de referência para que o Brasil crie um ambiente de maior civilidade e cordialidade entre diferentes torcidas, podendo se transformar em um legado para o futebol brasileiro, que deve unir forças para excluir dos campos, a violência e o racismo.

Marcos da Costa, advogado, é presidente da OAB SP