Artigo: Todos os sonhos de Martin Luther King*

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03/04/2018

"O que mais preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons". (Martin Luther King)

A humanidade deve se lembrar com tristeza do dia 4 de abril, que marca a morte do pastor Martin Luther King, ativista norte-americano e um dos mais importantes líderes dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Há 50 anos, o homem que dedicou sua vida aos direitos humanos e contra todas as formas de discriminação foi assassinado com um tiro disparado pela insensatez e pelo ódio dos racistas. A sua frase acima é apenas uma pequena amostra de como defendia a igualdade pela força das palavras, sem violência. Mataram o homem, não os seus sonhos.

Os Estados Unidos amadureceram os ideais de Martin Luther King. Sua primeira batalha começou ainda em 1954, quando assumiu a função de pastor na cidade de Montgomery, no Estado do Alabama, local em que ocorriam os maiores conflitos raciais do país. Ali liderou um movimento contra a segregação nos ônibus, após a prisão de Rosa Parks, costureira que se recusou a ceder o assento para uma pessoa branca. Nos estados do Sul a segregação racial tinha o respaldo da lei. Nos ônibus de Montgomery o motorista tinha de ser branco e os negros só podiam ocupar os últimos lugares. O movimento contra a segregação terminou após a Suprema Corte declarar inconstitucionais todas as leis de segregação. Foi o primeiro movimento vitorioso do gênero em solo americano. Luther King passou então a organizar campanhas pelos direitos civis dos negros, baseadas na filosofia da não violência, pregada pelo líder indiano Mahatma Gandhi.

Em 1960 conseguiu liberar o acesso dos negros em parques públicos, bibliotecas e lanchonetes. Em 1963, liderou a Marcha sobre Washington, quando reuniu 250 mil pessoas e pronunciou seu importante discurso, a partir da frase “I have a dream” (Eu tenho um sonho) para idealizar uma sociedade em que negros e brancos poderiam conviver em paz e harmonia. Em 1964 foi criada a Lei dos Direitos Civis, que garantia a tão esperada igualdade entre negros e brancos. Nesse mesmo ano, Martin Luther King recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Sua luta se estendeu também aos movimentos contra a Guerra do Vietnã e pelos direitos das mulheres.

Advogados e advogadas trazem no DNA de sua atividade a busca sem tréguas pelos direitos fundamentais da pessoa humana, pois seu compromisso maior é com a construção da cidadania. Trata-se de profissão pautada pelo princípio da igualdade entre os homens, sem a qual os direitos e a dignidade são inalcançáveis. É uma luta árdua, sem dúvida, pois a raiz desse sonho é a plena democracia, o regime da liberdade. Martin Luther King, Nelson Mandela, Mahatma Gandhi são alguns de tantos exemplos de lideranças que caminham com a mesma inabalável convicção de que, independentemente da cor, o ser humano é igual na essência.

No Brasil, invocamos outra figura extraordinária, que dedicou a sua vida à causa da liberdade e da igualdade, o herói nacional Luiz Gama. Nascido mestiço de pai branco e mãe negra, conquistou na Justiça a própria liberdade e, depois, advogou a mesma causa em prol dos seus semelhantes, consagrando-se entre os maiores abolicionistas do Brasil. Reconhecendo a sua importância para a nossa história, notadamente no combate à escravidão, a OAB  Conselho Federal e a Secional de São Paulo decidiram, de forma inédita, em reconhecimento ao seu trabalho, conceder-lhe, in memoriam, o título de advogado.

Infelizmente, muitas das bandeiras levantadas por esses homens corajosos ainda são sonhos em boa parte do mundo. Nos tempos atuais vemos marcas da segregação em democracias avançadas por motivos étnicos, raciais ou econômicos e não podemos nos calar diante de injustiças.

Não podemos e não devemos esquecer dessa triste página da história, onde através do assassinato tentou-se matar a esperança de um mundo sem racismo e qualquer tipo de opressão. O respeito à liberdade precisa ser reforçado na luta cotidiana contra a discriminação. É nossa tarefa cultivarmos uma convivência fraterna e capaz de proporcionar condições e oportunidades iguais aos seus integrantes, independentemente de raça, cor ou religião.

Façamos das palavras de Martin Luther King sobre o “silêncio dos bons” um mantra na busca por um mundo mais harmonioso e justo para com o próximo.

* Marcos da Costa é presidente da Seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil