Na Catedral da Sé, ato inter-religioso marca os 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos

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13/12/2018

Na Catedral da Sé, ato inter-religioso marca os 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos

A Declaração Universal dos Direitos Humanos surgiu logo após a Segunda Guerra Mundial e consagrou direitos para todos, com o objetivo de impedir a repetição de atrocidades perpetradas naquele período, ou seja, é uma ferramenta de evolução civilizatória das sociedades, local e globalmente. “A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, representou um enorme progresso ao dar reconhecimento universal para a dignidade humana. Mesmo não sendo integralmente respeitados, os 30 artigos da Declaração são uma referência para a legislação de povos e nações”, defendeu Dom Odilo Scherer, arcebispo Metropolitano de São Paulo, e anfitrião da cerimônia inter-religiosa, realizada (10/12) na Catedral da Sé, para homenagear os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A Seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil e a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo organizaram conjuntamente o ato e convidaram lideranças religiosas para ressaltarem a importância do documento da ONU. Elaborado por representantes de diferentes origens jurídicas e culturais de todas as regiões do mundo, a Declaração Universal busca resguardar direitos inalienáveis dos seres humanos, visando a construção de uma civilização mais justa para todos, independentemente de raça, cor, religião, sexo, origem social ou nacionalidade.

“Estamos defendendo o direito à vida, à dignidade, à liberdade, à segurança e de estarmos livres de discriminação de qualquer natureza. Nesta mobilização, demonstramos ativamente a possibilidade de respeito a uma das vertentes dos Direitos Humanos, colocando em prática a liberdade religiosa”, acentuou Marcos da Costa, presidente da OAB SP, durante o evento na Catedral. “Nesse ato inter-religioso, buscamos uma humanização maior, em contato com o público em geral aqui presente e em contato com a espiritualidade”, acrescentou Gisele Fleury Charmillot Germano de Lemos, secretária-geral adjunta, também presente à cerimônia.

No centro de todos os credos, o respeito ao ser humano
As intervenções dos sete líderes religiosos alcançaram um ponto comum, como evidência de que o respeito a direitos como vida, liberdade, dignidade, credo e segurança são observados por todas as denominações religiosas ali representadas. Por outro lado, a preocupação com a preservação desses valores foi outra área de convergência das falas. “A leitura atenta dos 30 artigos da Declaração de 1948 leva à conclusão de que os Direitos Humanos fundamentais ainda estão ameaçados, com frequência. O alarmante é que, em certas circunstâncias, o discurso em favor desses princípios é silenciado diante de manobras políticas e da busca de vantagens utilitaristas. Os Direitos Humanos, não raras vezes, são sacrificados nas negociações políticas e econômicas”, lamentou Dom Odilo Scherer, arcebispo Metropolitano de São Paulo.

O pastor Ariovaldo Ramos, representando a comunidade cristã reformada, clamou pela união de todos para que ninguém seja, de maneira alguma, impedido de vivenciar os seus direitos fundamentais, previstos na Declaração Universal. “Devemos segui os exemplos bíblicos da busca pelo controle dos excessos perpetrados por autoridades e agentes estatais. Jesus de Nazaré, conta a bíblia, reclamou a Anás o direito de não responder pergunta alguma, por não reconhecer em Anás a autoridade para interrogá-lo. Ou seja, por analogia, podemos dizer que, desde sempre, as escrituras sagradas reconhecem o ser humano como um sujeito de direitos”, relacionou Ramos.

A perseguição e a discriminação de grupos sociais, em função de raça, sexo ou orientação sexual, credo e outras características foi um ponto destacado na fala do rabino Alexandre Leone, da comunidade judaica. “A dignidade humana existe individualmente e coletivamente. Assim, um dos principais deveres das tradições religiosas é encarar o ser humano na sua dimensão de ser único, mas, ao mesmo tempo, como parte de uma coletividade: somos todos parentes, temos todos a mesma origem. Temos responsabilidade de lutar contra a desumanização dos grupos humanos”, afirmou o rabino. Ele ressaltou a importância da criação do conceito jurídico de crimes contra a humanidade, durante o julgamento de Nuremberg.

O discurso do Sheikh Mohamad Al Bukai, representante da comunidade islâmica, trouxe para a cerimônia a defesa dos Direitos Humanos como elemento social mais relevante que a luta por bens materiais, inclusive no dia a dia das congregações. “O ser humano é a criatura mais sagrada que existe. Os templos, que consideramos sagrados, foram construídos pelo homem e podem ser reconstruídos, caso sejam demolidos. Mas quando destruímos um ser humano, quem pode lhe devolver a vida?”, questionou. Para Al Bukai, o dia 10 de dezembro de 1948, foi um marco para a humanidade e a defesa dos Direitos Humanos deve ser sempre reforçada.

Promovendo um gesto de integração entre os credos representados nesse ato, Mãe Adriana de Nanã colocou uma divindade do Candomblé como acolhedora de mães de jovens negros, indígenas, muçulmanos, judeus e cristãos, mortos ou perseguidos em razão de raça ou credo. “Eu apelo à humanidade para que minha Mãe, Nanã, não precise mais consolar tantas mães que enterram seus filhos, vítimas da intolerância religiosa ou da ganância. Apelo para que todos assumam responsabilidade em favor da defesa dos Direitos Humanos”, clamou Adriana.

Durante o ato inter-religioso, o cacique Adolfo Timóteo, da aldeia Guarani, reivindicou a extensão dos Direitos Humanos aos povos indígenas, pontuando que o direito à vida, propriedade, liberdade e credo são desrespeitados frequentemente. “Quero lembrar dos tratados internacionais e do Direito Indígena. Precisamos cuidar do bem-estar do povo indígena e lutar para que nenhuma autoridade ataque e retire os nossos direitos”.

Na última fala, o monge Ryozan Sensei, da comunidade budista Zen, contou que, dois dias antes (8/12) do ato inter-religioso, foi celebrada uma data importante para o budismo japonês, comemorando a iluminação do Buda histórico. Utilizando esse fato, ele provocou o público a pensar na essência da defesa dos Direitos Humanos. “Quando atingiu o nirvana, o Buda percebeu que a verdade que procurava já estava manifesta. Do mesmo modo, hoje, quando falamos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a verdade sobre isso sempre esteve manifesta à nossa frente: a Declaração apenas formalizou princípios que todos têm noção, trazem dentro de si, mesmo antes de ler o documento das Nações Unidas”, concluiu o monge.

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