
Quase centenária, a OAB SP (Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo) carrega a força de uma instituição que jamais se afastou de seus objetivos: compromisso com o Estado de Direito e a defesa e valorização da advocacia em favor dos cidadãos.
Celebrar os 94 anos da OAB SP é reconhecer o valor do passado, agir com responsabilidade no presente e projetar o futuro com inovação, independência e comprometimento democrático. Para a Ordem paulista, o tempo não é apenas memória: é a conexão viva entre gerações que seguem construindo, juntas, uma advocacia mais justa, igualitária e democrática.
Importante notar que mesmo diante da passagem do tempo - quase um século - e muitas modificações nos âmbitos político e social, a OAB SP segue com a sua relevância e participação na sociedade. Só para mencionar os últimos anos, a entidade se posicionou em defesa da Justiça do Trabalho, contra a violência policial, e muitas outras questões do nosso tempo. A criação da Comissão de Estudos para a Reforma do Judiciário, com trabalhos a todo vapor já neste início de 2026, corrobora o fato.
Em relação à advocacia propriamente dita, o trabalho tem sido focado em pontos cruciais: na defesa das prerrogativas, na ampliação da diversidade e na preparação de profissionais para o novo mercado de trabalho que se apresenta com a transformação digital e a chegada da Inteligência Artificial. Podemos destacar o crescimento do programa Anuidade de Volta, que devolve o valor anual em créditos para qualificação profissional com cursos de extensão e pós-graduação da ESA (Escola Superior da Advocacia) ou com a participação nas oficinas, palestras, workshops e debates promovidos pela OAB SP, além da expansão e melhoramento das Casas da Advocacia e da rede CAASP, e da modernização da OAB Prev.
Uma instituição que chega aos 94 anos com muita saúde e muito a comemorar.
Sabemos onde estamos, mas de onde viemos?
Desde sua origem, a entidade se firmou a partir da compreensão de que não há República sólida sem advogados livres e comprometidos com a Justiça. Inspirada por juristas e pensadores do Direito, a advocacia assumiu papel central na defesa das garantias individuais, na organização do Estado e na mediação entre o poder público e a sociedade civil. Ao longo das décadas, a OAB SP não apenas acompanhou as transformações do Brasil como se manteve atuante, com participação ativa em todos os momentos históricos.
Anos 1930: organização profissional e resistência ao autoritarismo
Na década de 1930, em meio ao governo de Getúlio Vargas e a profundas transformações sociais, a OAB SP se consolidou como entidade representativa e espaço de pensamento crítico. Foi nesse período que a advocacia se afirmou como função essencial à Justiça, participando de debates estruturantes do Estado brasileiro, como a organização das relações de trabalho e a consolidação de direitos sociais.
Da repressão à redemocratização: democracia em defesa
Durante o período da ditadura, a advocacia encontrou na OAB SP um espaço de proteção e respaldo. A entidade foi decisiva tanto por conta das manifestações institucionais, quanto pelo apoio a advogadas e advogados que resistiram à repressão.
O advogado e professor de história do Direito da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Gustavo Angelli, destaca que “o que existe hoje são conquistas que resultam de uma luta coletiva, em defesa da democracia e de contestação ao autoritarismo”. Ele ressalta a importância de “compreender o valor dessas conquistas e preservar a memória institucional”, lembrando que muitas mudanças ainda precisam ser feitas em um país marcado por desigualdades estruturais.
Nesse contexto, o professor da FGV destaca as iniciativas como o Prêmio Benedicto Galvão, criado para homenagear o primeiro presidente negro da OAB SP. “E temos a eleição de Patrícia Vanzolini, em 2021, como primeira mulher a presidir a entidade”, diz Angelli, chamando a atenção para a necessidade da atenção constante à ampliação da representatividade.
Diretas Já e Constituição de 1988: protagonismo institucional
No processo de abertura democrática, a OAB SP teve participação fundamental. A mobilização pelas Diretas Já, a defesa da soberania popular e a articulação com outras entidades civis reafirmaram o papel da Ordem como voz ativa da sociedade. A participação na Assembleia Nacional Constituinte de 1987–1988 consolidou esse protagonismo, com contribuições técnicas e políticas que ajudaram a dar forma à Constituição Federal de 1988, marco da reconstrução democrática e da ampliação de direitos no Brasil.
Direitos, igualdade e inclusão como compromisso permanente
Ao longo de seus 94 anos, a OAB SP ampliou seu papel para além da defesa corporativa, assumindo compromisso permanente com a promoção dos direitos humanos. A entidade participou ativamente de debates e avanços legislativos voltados à proteção de mulheres, crianças, idosos, população negra e outros grupos historicamente vulnerabilizados, reafirmando que não há democracia plena sem igualdade, dignidade e acesso efetivo à Justiça. Essa trajetória acompanha a própria evolução da advocacia paulista, cada vez mais plural, representativa e conectada às demandas sociais.
Memória viva: o olhar de quem viveu a história
Aos 80 anos, o ex-presidente Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, que presidiu a Secional durante o período de abertura democrática, oferece um testemunho direto sobre a atuação da entidade em momentos decisivos da história recente do país. “Foi um período de transição muito sensível. A OAB São Paulo teve uma participação fundamental, sempre de forma suprapartidária e comprometida com a democracia”, afirmou.
Segundo ele, a campanha das Diretas Já foi um dos momentos mais emblemáticos na história da instituição. A mobilização reforçou o papel da advocacia como ponte entre a sociedade civil e as instituições em um contexto de reconstrução das liberdades públicas.
Defesa do Estado de Direito: um legado duradouro
Mariz ainda destacou a presença da OAB SP em casos sensíveis do período da ditadura, como o trabalho para a criação da Lei da Anistia, para os exilados políticos, e mais tarde no apoio à Eunice Paiva, viúva do engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva, que sumiu definitivamente após ser levado para depoimento nos porões do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). “Houve um trabalho de bastidores extremamente eficiente, junto ao Poder Judiciário e à polícia. Eunice ia à Ordem, e a Ordem a apoiava”, relatou.
Celebrar os 94 anos da OAB SP é reafirmar que a democracia é uma construção diária. A memória da Secional Paulista orienta seu propósito no presente e reforça sua responsabilidade com o futuro, mantendo a advocacia como pilar essencial da Justiça, da cidadania e na defesa do Estado Democrático de Direito.








